Notas de uma fenomenologia do Espaço e do Tempo em Campo Geral

And Time with us was always popular.
When have we not preferred some going round
To going straight to where we are?

(Our Bias; W. H. Auden)

Campo Geral, de Guimarães Rosa, é a narrativa da infância – e seu término – do menino Miguilim, que “morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-D’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em pouco remoto, no Mutúm.” É uma história que apresenta com maestria a possibilidade da perfeita articulação entre forma e conteúdo na literatura, marca característica da prosa rosiana que, aqui, é levada às últimas consequências. Pode-se dizer que em Campo Geral, o primeiro dos grandes contos que compõe os dois volumes de Corpo de Baile, a própria articulação do texto nos diz mais do que as unidades de sentido que são as frases. Nesse contexto, a figura do narrador ocupa um papel central.

O narrador de Campo Geral é uma mistura de narrador que está fora do mundo do livro, que apenas narra o que acontece, com um fluxo de consciência constante, influência da própria personagem central. Assim, a configuração espaço-temporal – ou seja, os focos narrativos, a espacialização da obra e como tudo se desenrola num tempo não é exata. Pelo contrário, é uma figura mimética dos olhos, mente e coração de uma criança – Miguilim. E assim se configura a prosa do livro, abordando diversos assuntos um atrás do outro, com viradas bruscas no pensamento quase que inexplicáveis. Somos remetidos a uma forma mais originária do ocupar-se com o mundo: forma que é encantada constantemente; forma que atenta a tudo, porque tudo se mostra como importante, como mágico. Portanto, não é de se espantar que o narrador focalize o passarinho na gaiola e, sem que se tome nota da mudança, esteja, subitamente, falando de outra coisa qualquer – o irmãozinho correndo na terra, por exemplo. Essa solução elimina a incoerência que assalta grande parte da prosa literária: que é supor uma ordem rigorosa e bem delineada do raciocínio, que se assemelha a demonstração de um teorema já pronto. Que é construir um romance psicológico que termine em quod erat demonstrandum.

Digna de nota, também, é a constituição espacial. A literatura tipicamente realista apresenta minuciosas descrições espaciais, de precisão e ordem geométricas. O espaço é um absoluto; suas distâncias se apresentam como claras e evidentes para o narrador, o que acaba se estendendo, pelo menos na impressão, a todas as personagens do mundo da ficção. Parece, na verdade, que elas não habitam no mundo, condição existencial essencial a todo Ser. Ao contrário, se imagina que possuam uma espécie de visão sem perspectiva, uma forma de planta planificada das coisas. As personagens veem o mundo como se tivessem os olhos de Deus. Já em Campo Geral, o espaço se constitui como o faria para alguém que dele falasse, no sentido duplo que a afirmação comporta. Que dele falasse: ou seja, que sobre ele falasse; mas, também, que dele falasse: que, de dentro dele, estando nele, falasse. E que o fizesse por categorias infantis. Onde haveria um mapa em sua exatidão; tem-se poesia, errância. E as distâncias já não são mais numéricas, cambiáveis, equivalentes: são antes qualitativas, vividas. O mar, figura que se instaura no imaginário de Miguilim, não está a várias fazendas de distância. O mar está a uma distância inalcançável. De modo análogo, a roça está a uma distância que não é de tantas léguas, mas passando pela floresta, caminho que só pode ser feito com uma certa maturidade. A passagem até a roça não é um caminho métrico, é uma transição existencial que se dá através da lírica.

O tempo também não é um compassado de uma só cadência; é um tempo orgânico, maleável. Se parece menos com um metro do que com um fluido viscoso que escorre pelos dedos em velocidades diferentes. O relógio ideal é a tela de Dali. Em uma ocasião Miguilim tenta contar o tempo. A própria tomada de consciência de sua passagem já é incerta e com um objetivo que turva mais as coisas. Trata-se de uma contagem regressiva para a morte, combinada com Deus por Miguilim. No trecho, a passagem do tempo não se dá em horas e minutos, mas em acontecimentos, em coisas. Assim é o tempo: material, concreto, mas ao mesmo tempo etéreo, misterioso, amorfo.

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10 comentários
    • Igor disse:

      Antes de mais nada: ainda não li o texto! Está na fila, lerei em breve.

      Tendo isso em vista… Não sei se místico. Eu diria que ele não se detém muito em questões metafísicas, limitando-se a escrever sobre as coisas que ‘existem’, em um sentido não-epistemológico. Ou seja, sobre a vida – do ponto de vista da vida.

  1. Não precisa ler o texto, precisa é falar com o Henrique e ver as aulas do Rizek. Haha!
    Ok, você quis dizer que ele é um pragmático, e com isso concordo eu concordaria. Mas não concordo sobre ele escrever sobre coisas que ‘existem’. Grande sertão pode ser visto como uma grande colocação da questão ‘existe o diabo?’; A terceira margem do rio é sobre… a TERCEIRA margem do rio…
    Mas enfim, não é bem isso que importa. Acho que não há oposição entre ser místico e escrever sobre coisas que existem, ou, como você disse, “sobre a vida – do ponto de vista da vida”, pois, usando o exemplo mais simples possível, se você é místico, é capaz que você acredite que as coisas místicas existam.
    E quero provocar em só mais uma coisa: você analisou o tempo e o espaço em Guimarães, e mostrou o quão refinado eles são nas obras dele, e ao mesmo tempo, defende que ele não se detém em questões metafísicas? Isso não seria uma contradição? (dando uma de jornalista).

  2. Igor disse:

    Mas é justamente isso que chamo de “vida do ponto da vida”. O fato é que essas coisas – a mística para os místicos, e o tempo e o espaço ‘distorcidos’ – ‘existem’ enquanto se dão para as personagens, para os vivos. Quando digo que ele não é metafísico, é porque ele não se preocupa (me parece, pelo menos) em dar um ponto final a quem tenha dúvidas do gênero: “mas as coisas místicas existem REALMENTE?”. Elas existem, porque, para alguns, existem; e isso é o que basta.

    Mas eu não li Grande Sertão. 😦

  3. Ok, nesse sentido de metafísico faz todo o sentido. Mas será que só porque existe para alguns basta? Eu acho que ele está querendo abrir os olhos das pessoas, mostrando que as coisas místicas existem, só falta nos deixarmos possuir por elas.
    Goethe, nos dá uma outra visão sobre a mesma questão em suas ‘Elegias romanas’: “Falais-me, Estrelas, a mim, ó digam, vós, elevados palácios!/ Ruas, digam uma palavra! Gênio, não dizeis nada?/ Sim, tudo é dotado de alma nos muros sagrados,/ Eterna Roma; só a mim ainda tudo é silencioso.” E continua. Tradução tosca minha, mas veja, a idéia é um pouco a mesma.

  4. Igor disse:

    Se partimos do pressuposto que as coisas místicas existem, não deveria haver um retorno para aquela ‘ontologia metafísica’, da qual tão custosamente nos livramos, que separa em critérios últimos o que é – e o que não é – legítimo? Mas talvez um ‘meio termo’ seja possível, o de “O Que É Metafísica” do Heidegger…

  5. Sim, tem razão, as coisas místicas, como o númeno, devem poder existir (quadrado, losângulo, p, em linguagem lógica, haha), e o Grande sertão (spoiler, spoiler!!) é de certo modo a história do homem que vive esse conflito do ‘meio termo’ de forma íntima: existe ou não o diabo? Fiz ou não fiz o pacto, aquele dia, naquele brejo? Será que só pude destruir as forças do diabo sendo eu mesmo parte de suas forças? Se não, porque então morreu meu amor?
    E como você enxergou um meio termo em O que é metafísica?

  6. Primrose disse:

    Acrescentaria dois outros adjetivos à narrativa de Rosa em Campo Geral: fluída e envolvente.

    Quando leio um livro não o vejo com os olhos de um filósofo ou de um pensador que cuidadosamente investiga a estrutura do texto como você parece e costuma fazer. Não tenho esta intenção e também não teria a mínima capacidade para escrever tal análise como você fez.
    Acho que deixo minha consciência menos crítica e me permito fluir para dentro das palavras ditas e não ditas por Miguilim e por tantos outros personagens de tantas outras obras. Isso talvez responda um pouco a sua cara de “você não achou difícil de entender a narrativa no começo?”. Não, não achei porque me intrometi ali no meio do Mutúm e passeei com Dito pela capoeira da fazenda.
    Não sei se o que faço é o melhor a se fazer, porque aí, depois que termino o livro fico com uma sensação de ser puxada novamente para a minha realidade e toda aquela envolvente magia de Guimarães Rosa me escapa das palavras. não gosto disso. Acabo te invejando. Percebo que apenas SENTI o livro. Senti na pele o sol ardente da roça, escutei o canto do tico-tico rei, chorei junto do catre do Dito doente, mas apenas senti tudo aquilo. Nada analisei e por isso não me vem palavras para descrever o livro e dissertar sobre ele.
    Gosto assim. É bom. Mas fico incapaz de me comunicar. Não consigo dizer para você, Igor, o quanto gostei do livro, o quão belo e mágico o mundo de Rosa é. Mas talvez isso seja artimanha do próprio autor, como você mesmo disse: “Somos remetidos a uma forma mais originária do ocupar-se com o mundo: forma que é encantada constantemente; forma que atenta a tudo, porque tudo se mostra como importante, como mágico”.
    Usei, então, as suas palavras para me dizer um pouquinho.

    • Igor disse:

      Você lê assim porque nunca precisou de umas ‘aulas de poesia’. Ler é sentir. E eu também tento fazer assim e, só depois, pensar sobre o que ‘vivi’. Mas, é verdade, muitas vezes não consigo; esse texto, mesmo, pensei-o enquanto lia. Já tinha o idealizado quase por inteiro antes de terminar.

      Fico contente que você tenha gostado, mais uma coisa que compartilhamos. 🙂

      P.S. Só acho que a sua ‘inveja’ não é tão justificada. As palavras não me saem naturalmente, sobretudo ultimamente. Escrever um pequeno ensaio destes me custa muito suor; é um verdadeiro trabalho de parto ou vômito forçado. Mas pra quê, isso? Até porque, pouca gente lê. Simplesmente porque é esse o trabalho – ofício – onde me enxergo laborando com prazer: o de aventurar-me em muitos textos, os mais diversos possíveis, de viver entre Miguilim, na Rússia e onde mais for; só para, depois, contar. Contar as aventuras de modo novo que, assim espero, possam cativar alguém. Orientar, se possível; traçar uma cartografia das minhas viagens. É uma visão um pouco poética – e talvez utópica – do que possa ser um intelectual, mas temos de tentar, não? Afinal, é preciso fazer nosso melhor e torcer pra que dê certo; é preciso fazer aquilo em que acreditamos.

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