Guimarães Rosa: Uma Ontologia Poética

Ao Gabriel P. que, embora discordando, começou a discussão que gerou esse ensaio.

“A curious thing about the ontological problem is its simplicity. It can be put in three Anglo-Saxon monosyllables: ‘What is there?’ It can be answered, moreover, in a word—‘Everything’—and everyone will accept this answer as true.”

‘On What There Is’
W. V. O. Quine


João Guimarães Rosa não era filósofo, era mais do que isso: Pensador. Não possuir essa alcunha (de filósofo) é, em certo sentido, o maior alívio para o pensamento de alguém. A exigência de clareza e distinção lesa a inteligência porque recusa a vida; vive-se em um mundo de conceitos sem corpos, de signos vazios. A literatura e a poesia, são, em certo sentido, a salvação de alguma filosofia. Tem a força necessária para fazer do barro oco das ideias, através de um sopro divino, homens.

Como seu lugar de ofício – a literatura – lhe garante maior liberdade e, por consequência, na sua prosa, o problema ontológico se desdobra como mais complexo que o resumo de Quine. Perguntar: “O que há?” é o inquérito típico do filósofo: é despersonalizado, interpessoal, abstrato. Não se espanta que no ensaio supracitado de Quine diga mais à lógica e à matemática do que ao ser humano, em uma atitude anterior. Atitude da vida. A pergunta feita por Guimarães parte da de Quine – “O que há?” – mas lhe acrescenta fatores: “O que há para quem?”; “Como há para tal indivíduo?”; “O modo de haver da coisa é o mesmo para dois indivíduos distintos?”; “É possível falar em realidade última, acessível ou não aos indivíduos? Ou tudo resulta em ‘interpretações’, de valor igual ou diferente?”. Guimarães se dá ao luxo, portanto, de esquecer a primeira pergunta – “O que há?” – porque para ele isso é o que pode haver de maior importância, mas apenas paralelamente as vidas humanas. As decisões ontológicas enquanto feitas, concretamente, no mundo real. Mas Guimarães também não é sociólogo, sua veia poética nos dá acesso quase que direto aos olhos e ao coração de suas personagens. Lendo seus contos e romances, vemos e sentimos com suas criaturas. Por ser assim, a ontologia rosiana é a mais fundamental – no sentido de anterior, de original – ontologia: é uma ontologia que se dá paralelamente – ou, ainda, imbricada – ao existir humano. Portanto, é poética: o próprio existir o é.

Em “Corpo Fechado”, somos introduzidos a uma problemática ontológica de um ponto de vista prático: existem – ou melhor, funcionam – ou não as artes místicas? Frente a angústia, no momento que antecederia um confronto mortal, Manuel Fulô recorre a Antônio, “curandeiro feiticeiro”, lhe dando a coisa mais cara – a mula Beija-Fulô – em troca da magia de Antônio. O que se segue é improvável: num tumulto que impede o narrador, personagem habitante do conto, de ver o duelo. O desfecho, muito improvável, é a vitória de Manuel sobre o valentão que vinha se bater com ele. Para um homem das luzes, um filósofo conceitualista, a história de nada serve para elucidar o problema ontológico. Se nos livrarmos dessa abordagem restritiva – mas necessária – podemos reler a realidade: que é aquela que se dá para alguém. O corpo de Manuel foi ou não fechado, ou seja, imunizado contra armas de fogo? A pergunta é tão ociosa quanto “Capitu traiu ou não?” – o fato é que na poética da vida aquele fato – o ritual – foi fundamental. Tentar lhe dar outros motivos – “deu segurança a Manuel que, por isso, venceu a luta” etc. – é uma atitude ilegítima: projeta uma estrutura pré concebida da realidade em outros, em Manuel. Porque fica evidente que a superstição, para a personagem, existiu em-si, não como outra coisa, explicável por outros mecanismos. A superstição existe, portanto, enquanto númeno. Mais do que isso, Guimarães Rosa parece nos sugerir: talvez seja arriscado – e arrogante – ir além disso: a dúvida não se resolve em juízos interpessoais, mas no interior profundo da própria individualidade. E, assim, somos condenados a nos debater, enquanto vivos, com as questões problemas que quisermos – e também aquelas que a nós se apresentarem como necessárias -; “Existe um Deus?”, “Qual é o melhor maneira de viver?” etc. Cada vida implica, em si, uma resolução para estas questões. Cada vida resulta em uma ontologia diferente – e isso independe da discussão realismo ou antirealismo.

E um dos mais famosos aforismas do Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein afirma que ” sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Se levarmos a sério tal afirmação, o mistério será para sempre inexprimível. Seu acesso será limitado à via da intuição mística individual, ou mesmo será legado ao ostracismo. Talvez Guimarães concordasse com a afirmação, porque recusasse, em seus escritos, uma solução última para os problemas dessa natureza. No entanto, é através de uma linguagem poética que nos habilitamos a considerar seriamente esse tipo de questão.

*

Assim, espera-se justificado o problema da irregularidade do espaço e do tempo em Campo Geral, fundamentado em uma posição antimetafísica por excelência. É um problema análogo ao do questionamento ontológico da mística: em nível absoluto, a ontologia é recusada como um todo. No entanto, como os juízos questionadores fazem parte de uma dimensão fundamental da vida, somos obrigados a formulá-los em outra roupagem: na poética do ser-no-mundo. De mesmo modo, as constituições do tempo e do espaço podem ser abordadas de duas formas: buscando uma espécie de “coisa-em-si”, ou através de uma atitude pessoal para com elas. Guimarães opta pelo segundo, revelando uma verdade inacessível a outro tipo de discurso. Uma verdade que fala, direta e unicamente, à condição humana.

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4 comentários
  1. Belo texto!
    Gostaria de propor uma aproximação com uma frase que li agora pouco:
    “O eterno abismo entre o ser e a idéia só pode ser franqueado pelo arco-íris da imaginação. Os conceitos, prisioneiros das palavras, são sempre inadequados em relação à torrente da vida; portanto, é apenas a palavra-imagem, a palavra figurativa, que é capaz de dar expressão às coisas e ao mesmo tempo banhá-las com a luminosidade das idéias: idéia e coisa são unidas na imagem. (…) A poesia continua cultivando as qualidades figurativas, ou seja, portadoras de imagens, da linguagem, de maneira deliberada.”
    Isso está no capítulo ‘O jogo e a poesia’ do livro ‘Homo ludens’ do holandês Heitinga.

  2. O que me incomoda um pouco (nem tanto pra falar a verdade) é esse enfoque sobre a individualidade como pronunciadora do mundo, numa referência a Heidegger. Transcrevo aqui o trecho que me fez pensar sobre um problema (ou solução, hehe) dessa visão, que o Habermas analisou em seu ‘Pensamento Pós-Metafísico’:
    “Pois, no momento em que a consciência em geral se desfaz no pluralismo de mônadas singulares fundadoras de mundos, coloca-se o problema: como é possível constituir, a partir da perspectiva de cada uma delas, um mundo intersubjetivo, no qual cada subjetividade pode defrontar-se com a outra, não somente como um poder objetivizador oposto, hostil, mas em sua espontaneidade originária, que projeta mundos? Este problema da intersubjetividade torna-se insolúvel quando se parte das premissas de um Dasein que não pode projetar-se autenticamente em direção às suas possiblidades, a não ser estando solitário.”
    Meu questionamento se assenta no seguinte: basta a arte ser um espaço meio que ” fora-do-mundo”, de fuga, e não (mais) um espaço legítimo de expressão no mundo e do mundo e, portanto, passível de ser analisado? O que me faz pensar que o seu texto talvez responda a essa pergunta: não só basta, como é essencial que permaneça nessa condição, sob risco de se perder na objetividade que desumaniza nossas percepções e anunciações.

    • Igor disse:

      Ótimo comentário, Guilherme!

      Acho que você captou e entendeu bem meu ponto, embora eu mesmo já não tenha segurança de que o lembro bem… Acho que a questão vai além da solidão\sociabilidade, mas é a de afirmar que existe um mundo para além do intersubjetivo. O intersubjetivo são as ciências: sua linguagem precisa faz uso de sinais matemáticos e não pode haver entendimentos plurais das relações (equações) expressas: o máximo é pô-las à prova, mas nunca manter duas simultaneamente.

      Em oposição, a ontologia que eu leio no Rosa é uma mistura da fenomenologia do Heidegger com um relativismo metafísico do Rorty, na linha do pragmatismo. É abandonar aquela busca pela conhecimento final, Q. E. D., a busca cartesiana por Deus e, em troca disso, oferecer um número plural de mundos que diferem e coexistem. Não é questão de afirmar isso fisicamente, ou cientificamente: que existam n mundos etc. A questão é afirmar que o ‘habitar’ de cada homem na Terra é uma poesia e, como tal, única, singular, diferente.

      Devemos manter os discursos subjetivos, mas a atenção ao que Dewey (e também um Foucault mais maduro) considera primordial para a filosofia – a experiência singular – não deve ser perdida. Se a abandonarmos, colocamos, como você bem disse, nossa humanidade em risco.

  3. Primrose disse:

    Fico até com um medo de escrever um comentário no meio de pessoas em uma discussão tão intelectual assim.
    Mas quero dar um pitaco também.
    Acho que o comentário que fiz no post anterior se relaciona com o que foi discutido neste daqui.

    Não é necessário achar palavras para algo que não pode ser dito por elas. Acredito que existe sim um Mistério que não deve ser cutucado com a faca da razão e da ciência. Ele deve ficar lá e ser sentido e vivido apenas nos momentos em estamos abertos à nossa própria poesia, à nossa mágica.
    A forte tentativa do pensamento em buscar a tradução desse mistério nunca chegará à um fim; pode chegar em vários, mas todos estes fins serão apenas o começo de novas explorações a cerca do Mistério. Ele pode chamar Deus, Darwin, particulas atômicas, pó, Eva, razão pura, deus Sol, e etc. Nunca terá um nome e nunca será objetivamente analisável. Ele é apenas experimentável (permissão para inventar palavras).
    Não digo com isso que devemos negar o pensamento calculante, a biologia em seus achados, a teologia, nem a filosofia. Temos que nos manter falantes e pensantes, caso contrário nossa humanidade estaria a beira de um abismo. Estou querendo apenas pontuar, como vocês já esclareceram, que aquilo que chamamos de subjetivo é de extrema importância e a vivência não-dita de cada um e também do coletivo nos fazem tão humanos quanto qualquer tipo de conhecimento (por mais contraditório que possa parecer).
    Esses outros mundos são nossos e pertencem à nossa psique e nossa vivência. Estão ali, escondidos em qualquer lugar e cada ar que expiramos algum deles se solta um pouquinho. Compõem nosso imaginário, nossa força, nossas ideias, nossas ações e nosso EU. O pouco que sei de psicologia me faz caminhar por esta porta.
    É difícil se ver assim e aceitar que talvez a Lei não seja una, o mundo não seja apenas diversos Objetos reunidos e as Palavras não exprimam exatamente o que queremos dizer com elas. O psicanalista Lacan disse que não somos donos da nossa fala.

    Igor, concordo com você quando diz que Guimarães Rosa se recusa a desvendar o Mistério em suas obras. E eu concordo com ele.
    É onde está o abismo, a rachadura, o vão e a distância que o Mistério pode ser vivido.

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