Seriedade

Foi em março de 2009 que entrei naquela sala, como aluno, pela primeira vez. No ano seguinte, uma grande quantidade daqueles ali presentes engrossaria as fileiras das melhores faculdades de engenharia e medicina do país. Quando o professor entrou, uma saraivada de xingamentos o atingiu. Eram os alunos. Era uma brincadeira, como depois fui saber.

Um dia, um professor explicava, perplexo, porque os vestibulares se encaminhavam na tendência de cobrar um pensamento mais geral, mais ligado a uma capacidade de raciocínio e cultura geral, do que ao hermetismo das fórmulas decoradas e soletradas: era porque, cada vez mais, os alunos que ingressavam nas universidades brasileiras – nas melhores, fique claro – o faziam com uma mentalidade tipicamente infantil. Não deveria causar espanto que os trotes e comemorações mais violentas, danosas, desrespeitosas etc. vinham justamente dessa “elite intelectual”. Não é de se espantar que, um ano depois, o “rodeio de gordas” foi noticiado, chocando a todos. Só se chocou quem não via o óbvio que já estava patente há muito tempo: a classe universitária não é, nem de longe, luminar. Mas como assim? Se as provas de admissão medissem, justamente, o grau de instrução… Como é que os mais bem avaliados pudessem se comportar com tanta ignorância? Essas perguntas deviam apontar para o óbvio, mas há sempre aqueles que se recusam a enxergá-lo, fechando-se em pretensas ideologias – uma delas a “anti-ideologia”. São aqueles que repetem por aí que o Brasil precisa de mais engenheiros e menos poetas, ou coisa que o valha. Imagino o país por eles sonhado: grandes pontes, cortadas por carros velozes cujos motoristas, na casa dos vinte anos, dirigem embriagados e atropelam os que andam pela rua. Assim vivemos.

Por isso soam ridículas as reclamações contra a (volta, diga-se de passagem!) da filosofia no currículo do ensino médio. O fazem com a pretensa justificativa de que isso lesaria o ensino de matemática e “ciências básicas”, já deficitários. Afinal, o Brasil precisaria de engenheiros – aqueles que “pensam com clareza” -, não filósofos – tarântulas das imposturas intelectuais, apáticos e anti-produtivos por excelência -. O Brasil precisa de Paulo Maluf. Precisa de mais salões do automóvel e menos bienais. O Brasil precisa de mais projetistas de carros, para que possamos, finalmente, morrer sufocados. Assim, quem sabe, esse país dê certo.

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5 comentários
  1. E me deixa ainda mais triste ver que a principal proposta da Dilma e do Serra (principais candidatos na última eleição) para a educação era a criação de escolas técnicas, pois o déficit de mão-de-obra especializada nos impede de “crescer”. E crescer no Brasil, bem como em praticamente todos os países capitalistas liberais econômicos, significa ficar mais rico. E, de forma espantosa, o país tem mesmo crescido economicamente, tem ficado mais rico; porém, revestidos de uma falsa ingenuidade, nossos governistas não se preocupam em nenhum momento em como essa riqueza é lamentavelmente mal distribuída e em como privilegiamos o mérito para que seja revertida essa desigualdade.
    Obviamente, o conhecimento e o trabalho exigidos para se alcançar um novo patamar requer a inserção em uma realidade não só distante, mas sem sentido para a maior parte das pessoas. É uma realidade completamente estranha a sua própria. Não significa dizer que não há conhecimento para aqueles que não tem condições materiais de produzir seu mérito, mas apenas que seu conhecimento não é útil para o “crescer” que queremos. O conhecimento que se quer é técnico, imbecilizante, supostamente a-ideológico (quando adotar essa postura já é a vinculação a uma ideologia).
    No fim, estamos num país onde vencer significa ter um emprego útil para o crescimento econômico e para a realização individual. O fato de tratarmos quem não cumpre seu destino de subalterno como “vencedor” já revela que não paramos pra refletir nossa própria responsabilidade individual, nas ações e nos discursos, na manutenção dessa ordem estudantil ‘bancária’ (Freire).

    • Igor disse:

      Sim. O crescimento econômico é importante, e vemos quanto sucesso obteve a Coreia do Sul aplicando-se nesse modelo de educação. No entanto, acho sempre fundamental lembrar que é a cultura geral o bloco mais fundamental em um cidadão de um Estado Democrático e de Direito. Sem isso não se faz democracia, e aí temos os quadros desesperadores que temos no Brasil.

      Depois você precisa me indicar algumas coisas do Paulo Freire!

    • Igor disse:

      Cultura geral é cultura estética, filosófica, literária. Mais tecnicamente, é uma cultura que não serve a um fim específico (não é a técnica da marcenaria para o marceneiro) senão o de tornar a pessoa que a recebe melhor em um sentido vago e geral. É um conhecimento pelo conhecimento que, no fim, viabiliza a elevação do debate político, entre outros.

  2. Primrose disse:

    Gostei muito do texto, Igor.
    E do comentário do Guilherme também.

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