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Arquivo mensal: outubro 2011

Na interpretação de Richard Rorty, Freud possui um papel central na filosofia moral contemporânea: o de ser pioneiro em uma ‘desfundamentalização’ do discurso da moral; ou seja, na retirada do vício de nossa moral de ser uma caminhada para valores trans-históricos e absolutos, tais quais uma “essência humana”, ou “bem” etc. Essa recusa é a aceitação – e afirmação – da personalidade moral como contingente de uma série de maneiras. Na interpretação rortyana, Freud enxergaria toda conduta como resultado de um processo de adaptação do indivíduo frente a estímulos externos, oriundos da infância. Assim, a expressão artística e a patologia se colocam na mesma esteira de condutas adaptadas perante um mundo oferecido pela mera contingência. Com Freud pudemos, finalmente, abraçar o acaso. E, por isso, a expressão moral em Freud não é teleológica (portanto, de herança platônica); com ela não poderemos traçar metas para a humanidade. Em oposição a isso, nos é oferecida uma estrada diferente nos caminhos da moral: que é reconhecer o papel da contingência e superá-la, de certa forma, na autocriação de um novo eu. Visto por esse ângulo, o processo terapêutico lembra o projeto de autonomia e perfeição privada de Nietzsche: o sujeito, ao pintar sua natureza, não diz “sou assim”, mas “me quis assim”.

Extremamente coerente com sua filosofia, Rorty se desmistifica em uma entrevista. Aponta, calmamente, seu comportamento intelectual como resultado de uma série de estímulos, entre eles, uma infância difícil e desadaptada, uma dificuldade para “conversa fiada”, um sentimento de isolamento. A universidade, então, surgiu como um lugar onde, finalmente, ele estaria “em casa”. Mais do que isso, ele ainda fala que enxergava tudo isso como alguma forma de vingança contra os que antes o atormentavam. Vingança indireta que incluía habitar uma espécie de círculo superior; ou seja, o círculo intelectual. Falando com essa espantosa franqueza, Rorty ajuda a desmascarar um de nossos mitos preferidos: o do intelectual como ser superior, que vê claramente, em contraposição à “ingenuidade”, “alienação” ou “cegueira” dos outros, geralmente justificada por uma mera falta de aptidão ou à submissão contingente a “instituições de controle”. Dessa forma, dilui-se um debate que, hora é mantido pelos intelectuais, que supõem levar uma vida mais “digna” do resto dos mortais; hora é mantido pelos anti-intelectuais, que reputam essa conduta a um mero aristocracismo de terceiro mundo. Nos dois casos, não há sentido: o intelectual é uma adaptação, entre outras. Evidentemente, não se espera em cair em um total relativismo. A discussão poderia prosseguir, nesse sentido, para distinguir de alguma forma os modos de adaptação. Um critério poderia ser o prejuízo direto que a conduta causa a terceiros, por exemplo (no caso de um pedófilo, em hipótese). Outros poderiam ser propostos. Ou, até, a distinção poderia passar ao largo de qualquer formulação, que é a solução de Rorty, e basear-se em critérios menos conceituais, como a solidariedade. Mas a questão, aqui, é apenas levar ao cabo a total desdivinização de uma figura que, na verdade, só leva desprestígio a si própria tentando sustentar o céu nas costas, sem saber que nada tem de prometeico.

OBS: Esse texto é uma pequena resenha de uma série de TV, acompanhada por algumas digressões que, de alguma forma, se fizeram necessárias.


Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!

(Fernando Pessoa)


Se algum dia eu for escrever uma autobiografia intelectual, ela deveria começar assim: “Como eu posso morrer? E, se posso, qual o sentido de viver?”. Comecei a me colocar essas questões quando tinha por volta de seis anos e, não seria injusto notar que tudo o que escrevo, leio, estudo etc. foi sempre motivado por esse tema primordial: a morte (de si, dos outros, metafísica). Depois do início, marcado por esses questionamentos, a pergunta foi se desdobrando: “como falar sobre a morte”; “como viver com a morte”. Pretendo dar um depoimento da primeira, o que certamente leva a segunda.

No domínio da morte, os imperativos da lógica soam absurdos. Não é possível, como no filme de Bergman, jogar xadrez contra ela (ele, nas sutilezas da língua sueca). A argumentação é desarmada frente a fenomenologia imperturbável de nossa realidade última. É verdade, se realmente a morte “nadifica“, então não “deveríamos” nos preocupar: se estamos vivos, então não há o que temer; se morremos, não há o que temer também, porque já não somos para poder ter estados de consciência. Claro: a fórmula é vazia. A morte não se dobra de joelhos às sutilezas do discurso jurídico e logicista. Não deveríamos a temer, no entanto a tememos e contra isso não há argumentação. De forma semelhante se comporta, o Ivan Ílitch, de Tolstói, repetindo o silogismo aristotélico:

a) Todos homens são mortais
b) Fulano é homem
c) Fulano é mortal

Acha que, aplicando-o a si, se tranquilizará frente a inevitabilidade de sua condição terminal. Evidentemente, enquanto permanece atado a essa forma de pensamento, Ílitch permanece desesperado, inquieto. O alcance do livro de Tolstói é enorme por isso: nos mostra a futilidade do conceito perante a realidade do fenômeno da morte quando ele se mostra mais evidente. Mas, se não podemos falar da morte em termos abstratos, como o fazer? A grandiosidade da obra do russo também alcança esse questionamento: podemos falar da morte contando histórias. As artes, sobretudo as não abstratas, são o discurso privilegiado para tanto. Não existe a morte “em geral”; existe o sujeito X que morreu de enfarte, deixando para trás dois filhos; o sujeito Y que foi baleado por um policial ao tentar fugir com objetos roubados; o sujeito Z que expirou dormindo num sofá em frente à TV. Tudo são histórias.

Six Feet Under é uma série de TV. Consequentemente, é “mercadoria”. Esse estatuto certamente serviria para que os mais puristas se afastassem, de nariz torcido. Mas, independente do que se diga, a “mercadoria” foi a que melhor soube tratar o assunto para nós tão obscuro: a morte – a nossa, a dos outros, a metafísico-existencial -. A série o faz retratando uma família dona de uma casa funerária. Família que convive diariamente com a morte, entre corpos embalsamados, pessoas chorando, luto e sofrimento. E, no entanto, como vemos nos primeiros minutos do primeiro episódio, ninguém – nem mesmo pessoas com tanto “treino” – está preparado quando a “indesejada das gentes” chega. A série começa com o patriarca da família morrendo, subitamente, num insólito acidente de carro. Assim, vida e morte se misturam, e cada episódio obriga as personagens (e o espectador, por extensão) a lidar diretamente com a morte: com a sua, com a de seus entes queridos. Em um momento memorável, um dos filhos, enquanto embalsama um cadáver, fala com o próprio, alucinando. O cadáver diz, com maldade e sarcasmo, que ele (o filho) pode morrer a qualquer momento, de qualquer forma; quando isso acontecer, ficará longe de todos: dos filhos, da família etc. Na contingência da história, essa é a realidade da morte: ficar, por um tempo indefinido, sozinho – longe de todos os que se podia desejar. É assim, deixando o campo da abstração, assistindo ao humor negro e à tragédia que consagram as inumeráveis mortes retratadas no programa que somos levados a enxergar o fenômeno com outros olhos: não através de uma classe homogênea, algo que acontece a todos de forma quase idêntica, mas como um “mote”, que é reinterpretado e completamente diferente por e para cada um.

Por ser contemporâneo, o programa também diz respeito a nossos rituais de morte. Lembrando a tese do sociólogo alemão Norbert Elias, em seu “A Solidão dos Moribundos”, de que, em nossas sociedades, vivemos uma espécie de “Admirável Mundo Novo” às avessas. No livro de Huxley, as crianças eram levadas a leitos de mortos e recebiam doces e outras coisas agradáveis, sendo assim condicionadas a não se preocuparem com a morte. Essa preocupação, já notava Huxley, era o mal e o início de todas as outras: arte, filosofia, religião. Ora, em nosso mundo “pós industrial”, fazemos justamente o contrário: se antes o leito de morte era a casa da família, rodeado de pessoas, hoje o morto, no ambiente acético do hospital, fecha os olhos sozinho, longe de olhares não profissionais. A verdade é que, para usar um termo psicanalítico, “recalcamos” a nossa morte. Nossa vida em sociedade se tornou, em parte, um teatro para nos fingirmos imortais. Assim, a busca obsessiva pela saúde, incluindo um forte viés público que adentra os hábitos íntimos dos cidadãos, é também a busca para nos esquecermos de nossa própria morte. O sujeito que vive em função da saúde; que faz esportes, tem dieta cuidadosamente regulada, toma pílulas, vitamina e chá verde não quer prolongar sua boa vida (até porque, parte da vida se perde nesse controle exacerbado de si), mas, na verdade, tornar-se imortal. Quem se controla assim não o faz pensando em adiar um inevitável, mas expurgar esse inevitável. Mas, se olharmos com cuidado, então reconheceremos o papel inevitável da contingência e a falta de controle que temos de nosso destino. Papel esse que só é acentuado de forma aceitável pela narrativa: as ficcionais e as que a vida nos apresenta.

Perguntar pela própria morte equivale a perguntar pela própria vida. A nossa mortalidade, nossa finitude, diz respeito diretamente a forma pela qual optamos por viver. Desde cosmogonias religiosas, que imaginam um além-vida que é reflexo – na forma de premiação ou castigo – daquilo que vivemos na Terra, até aquele que reconhece esta como única e pretende, portanto, não desperdiçar nenhum momento. Construímos sentidos porque vamos morrer. E a vida, sendo passageira, assemelha-se a narrativa: com personagens, motes, fatos escolhidos. Amarramos tudo em um fio de memórias, tentando constituir um sentido qualquer, como nos livros. Assim, a luta por um sentido próprio – já que a vida não nos dá um pronto – é a luta fundamental do homem. A luta pela “perfeição individual” (Rorty) é a nossa disposição de colocar uma ordem no universo, para que sejamos inseridos nele como uma engrenagem necessária, ou que ele seja inserido em nós, como parte constituinte. Nesse sentido, Six Feet Under é uma espécie de Dostoiévski contemporâneo. Porque a série consegue abarcar, em um mesmo contexto, uma polifonia de vozes destoantes, cada uma tentando construir algo que faça sentido e cujas construções são invariavelmente contraditórias sem, contudo, anularem-se umas às outras enquanto possibilidades. Cada personagem busca inserir um sentido em sua maior “obra”, que é a vida; adaptando-se, no entanto, às contingências. Nesse contexto, a morte tem papel fundamental; seja como ofício, como resquício familiar (o carro funerário da família, por exemplo); seja diretamente na morte daqueles cujas personagens mantém relações familiares. A série é uma prova de que o “mercado” não é, necessariamente, imbecilizante; que, no fim, “não é preciso poupar a audiência dos temas difíceis”, como disse uma das atrizes.

O meio intelectual no Brasil é curioso. Assistimos, de um lado, uma grande hostilidade ao intelectualismo; de outro, um hermetismo e ocultismo dos intelectuais, que parecem habitar um mundo a parte, de superioridade e ironia.

A excelência aqui parece ser sinônimo de idiotice; claro, porque o jeitinho sempre foi a saída correta. “Se malandro soubesse como é bom ser honesto / Seria honesto só por malandragem.”, já dizia a canção de Jorge Ben Jor. Assim, qualquer um que tenta elevar o nível para além do senso-comum tem que enfrentar uma onda de acusações, injúrias etc. Supostamente, tentar fazer melhor significa ser arrogante; tentar sair da média é uma ofensa brutal para alguns.

Por outro lado, o intelectualismo no Brasil “vestiu a carapuça” e fez do meio pensante uma espécie de fantasia de carnaval. O intelectual é superior àqueles que passam pelas mesmas ruas; é superior às convenções sociais e, parece, ao plano humano vulgar. O intelectual-modelo olha, com olhar blasé, para tudo: tudo é ingênuo, infantil, alienado. Se apropria de um vocabulário técnico – de forma vazia – e com ele se defende, falando de nada, da esfera do ordinário. Reificação, fetichismo, gramática – não mão desse iconoclasta, tudo são signos vazios que constituem uma carapaça que o protege. Mas também, em contrapartida, há o intelectual-ao-avesso. É aquele que, incomodado com a situação descrita acima, se volta para a vulgaridade e torna seu discurso tão raso quanto de seus interlocutores. Se o público geral pode, em contato com o primeiro, desenvolver um nojo a qualquer discurso inteligente; no segundo tipo irá reconhecer-se, e o melhor, no estatuto de alguém que também é lido, fala francês, entende as ciências. As lamúrias de Pondé contra o feminismo, que aparecem quase mensalmente em suas colunas, poderiam ser inteligentes: o feminismo não é, hoje, algo tão inatacável e de fato comete excessos, erros etc. No entanto, o polemista escreve seus textos sintetizando, ao mesmo tempo que conferindo uma carapaça de superioridade acadêmica, todos os argumentos de mesa de bar. Afinal, é difícil mesmo levar a sério coisas na linha de “a mulher precisa de machos de verdade”; “educadoras sexuais vão obrigar seu filho a colocar camisinhas com a boca” etc. etc. São exemplos corriqueiros na contra proposta ao “meio intelectual, meio de esquerda”, descrito, em suas idiossincrasias por Antônio Prata.

O cenário intelectual brasileiro parece se comportar como um pêndulo, oscilando entre um polo de arrogância, hermetismo e solipsismo e outro de conceitos rasos, pseudo-ideologias, senso comum.

Parece que a culpa por nosso estado não é do público – tão avesso ao pensamento mais elevado -; público que tampouco é inocente. Falta-nos, para começar, a figura do intelectual público, não do guru. Pondé, Chauí, Safatle; todos podem pertencer a altas estirpes do pensamento, mas a verdade é que pouco acrescentam a um debate verdadeiro: tem seus seguidores, que já partilhavam de suas convicções antes mesmo de os lerem, e buscam a confirmações de seus preconceitos. Isto é, na maioria das vezes, ao menos. Precisamos daqueles que deem a cara a tapa: que saiam dos porões mofados das bibliotecas universitárias e da pompa da superioridade moral sem, no entanto, sacrificar as sutilezas e a profundidade de um pensamento mais cuidado.