Anti-intelectualismo e Intelectuais

O meio intelectual no Brasil é curioso. Assistimos, de um lado, uma grande hostilidade ao intelectualismo; de outro, um hermetismo e ocultismo dos intelectuais, que parecem habitar um mundo a parte, de superioridade e ironia.

A excelência aqui parece ser sinônimo de idiotice; claro, porque o jeitinho sempre foi a saída correta. “Se malandro soubesse como é bom ser honesto / Seria honesto só por malandragem.”, já dizia a canção de Jorge Ben Jor. Assim, qualquer um que tenta elevar o nível para além do senso-comum tem que enfrentar uma onda de acusações, injúrias etc. Supostamente, tentar fazer melhor significa ser arrogante; tentar sair da média é uma ofensa brutal para alguns.

Por outro lado, o intelectualismo no Brasil “vestiu a carapuça” e fez do meio pensante uma espécie de fantasia de carnaval. O intelectual é superior àqueles que passam pelas mesmas ruas; é superior às convenções sociais e, parece, ao plano humano vulgar. O intelectual-modelo olha, com olhar blasé, para tudo: tudo é ingênuo, infantil, alienado. Se apropria de um vocabulário técnico – de forma vazia – e com ele se defende, falando de nada, da esfera do ordinário. Reificação, fetichismo, gramática – não mão desse iconoclasta, tudo são signos vazios que constituem uma carapaça que o protege. Mas também, em contrapartida, há o intelectual-ao-avesso. É aquele que, incomodado com a situação descrita acima, se volta para a vulgaridade e torna seu discurso tão raso quanto de seus interlocutores. Se o público geral pode, em contato com o primeiro, desenvolver um nojo a qualquer discurso inteligente; no segundo tipo irá reconhecer-se, e o melhor, no estatuto de alguém que também é lido, fala francês, entende as ciências. As lamúrias de Pondé contra o feminismo, que aparecem quase mensalmente em suas colunas, poderiam ser inteligentes: o feminismo não é, hoje, algo tão inatacável e de fato comete excessos, erros etc. No entanto, o polemista escreve seus textos sintetizando, ao mesmo tempo que conferindo uma carapaça de superioridade acadêmica, todos os argumentos de mesa de bar. Afinal, é difícil mesmo levar a sério coisas na linha de “a mulher precisa de machos de verdade”; “educadoras sexuais vão obrigar seu filho a colocar camisinhas com a boca” etc. etc. São exemplos corriqueiros na contra proposta ao “meio intelectual, meio de esquerda”, descrito, em suas idiossincrasias por Antônio Prata.

O cenário intelectual brasileiro parece se comportar como um pêndulo, oscilando entre um polo de arrogância, hermetismo e solipsismo e outro de conceitos rasos, pseudo-ideologias, senso comum.

Parece que a culpa por nosso estado não é do público – tão avesso ao pensamento mais elevado -; público que tampouco é inocente. Falta-nos, para começar, a figura do intelectual público, não do guru. Pondé, Chauí, Safatle; todos podem pertencer a altas estirpes do pensamento, mas a verdade é que pouco acrescentam a um debate verdadeiro: tem seus seguidores, que já partilhavam de suas convicções antes mesmo de os lerem, e buscam a confirmações de seus preconceitos. Isto é, na maioria das vezes, ao menos. Precisamos daqueles que deem a cara a tapa: que saiam dos porões mofados das bibliotecas universitárias e da pompa da superioridade moral sem, no entanto, sacrificar as sutilezas e a profundidade de um pensamento mais cuidado.

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