“Sejamos Humildes” – Rorty, Intelectualismo e a contingência da moral

Na interpretação de Richard Rorty, Freud possui um papel central na filosofia moral contemporânea: o de ser pioneiro em uma ‘desfundamentalização’ do discurso da moral; ou seja, na retirada do vício de nossa moral de ser uma caminhada para valores trans-históricos e absolutos, tais quais uma “essência humana”, ou “bem” etc. Essa recusa é a aceitação – e afirmação – da personalidade moral como contingente de uma série de maneiras. Na interpretação rortyana, Freud enxergaria toda conduta como resultado de um processo de adaptação do indivíduo frente a estímulos externos, oriundos da infância. Assim, a expressão artística e a patologia se colocam na mesma esteira de condutas adaptadas perante um mundo oferecido pela mera contingência. Com Freud pudemos, finalmente, abraçar o acaso. E, por isso, a expressão moral em Freud não é teleológica (portanto, de herança platônica); com ela não poderemos traçar metas para a humanidade. Em oposição a isso, nos é oferecida uma estrada diferente nos caminhos da moral: que é reconhecer o papel da contingência e superá-la, de certa forma, na autocriação de um novo eu. Visto por esse ângulo, o processo terapêutico lembra o projeto de autonomia e perfeição privada de Nietzsche: o sujeito, ao pintar sua natureza, não diz “sou assim”, mas “me quis assim”.

Extremamente coerente com sua filosofia, Rorty se desmistifica em uma entrevista. Aponta, calmamente, seu comportamento intelectual como resultado de uma série de estímulos, entre eles, uma infância difícil e desadaptada, uma dificuldade para “conversa fiada”, um sentimento de isolamento. A universidade, então, surgiu como um lugar onde, finalmente, ele estaria “em casa”. Mais do que isso, ele ainda fala que enxergava tudo isso como alguma forma de vingança contra os que antes o atormentavam. Vingança indireta que incluía habitar uma espécie de círculo superior; ou seja, o círculo intelectual. Falando com essa espantosa franqueza, Rorty ajuda a desmascarar um de nossos mitos preferidos: o do intelectual como ser superior, que vê claramente, em contraposição à “ingenuidade”, “alienação” ou “cegueira” dos outros, geralmente justificada por uma mera falta de aptidão ou à submissão contingente a “instituições de controle”. Dessa forma, dilui-se um debate que, hora é mantido pelos intelectuais, que supõem levar uma vida mais “digna” do resto dos mortais; hora é mantido pelos anti-intelectuais, que reputam essa conduta a um mero aristocracismo de terceiro mundo. Nos dois casos, não há sentido: o intelectual é uma adaptação, entre outras. Evidentemente, não se espera em cair em um total relativismo. A discussão poderia prosseguir, nesse sentido, para distinguir de alguma forma os modos de adaptação. Um critério poderia ser o prejuízo direto que a conduta causa a terceiros, por exemplo (no caso de um pedófilo, em hipótese). Outros poderiam ser propostos. Ou, até, a distinção poderia passar ao largo de qualquer formulação, que é a solução de Rorty, e basear-se em critérios menos conceituais, como a solidariedade. Mas a questão, aqui, é apenas levar ao cabo a total desdivinização de uma figura que, na verdade, só leva desprestígio a si própria tentando sustentar o céu nas costas, sem saber que nada tem de prometeico.

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5 comentários
  1. É, o bem supremo do Espinosa foi pro beleléu…

    (mas o Caetano diz que quando o Rorty esteve no Brasil ele super pagou de intelectual superior…)

  2. Igor disse:

    Hahaha, sério? Bom, imagino que sim… Mas o ponto é mais a ideia do que se o cara que a pensou\escreveu esteve à sua altura. O que contradiz um pouco meu post, porque eu usei um exemplo da “vida” do Rorty. Vou perguntar ao Caetano sobre isso depois.. hehe

  3. Palavras do patrono do Rorty: “If any of you here are professional philosophers, and some of you I know to be such, you will doubtless have felt my discourse so far to have been crude in an unpardonable, nay, in an almost incredible degree. Tender-minded and tough-minded, what a barbaric disjunction! And, in general, when philosophy is all compacted of delicate intellectualities and subtleties and scrupulosities, and when every possible sort of combination and transition obtains within its bounds, what a brutal caricature and reduction of highest things to the lowest possible expression is it to represent its field of
    conflict as a sort of rough-and-tumble fight between two hostile
    temperaments! What a childishly external view! And again, how stupid
    it is to treat the abstractness of rationalist systems as a crime,
    and to damn them because they offer themselves as sanctuaries and
    places of escape, rather than as prolongations of the world of
    facts. Are not all our theories just remedies and places of escape?
    And, if philosophy is to be religious, how can she be anything else
    than a place of escape from the crassness of reality’s surface? What
    better thing can she do than raise us out of our animal senses and
    show us another and a nobler home for our minds in that great
    framework of ideal principles subtending all reality, which the
    intellect divines? How can principles and general views ever be
    anythinganything but abstract outlines? Was Cologne cathedral built without an architect’s plan on paper? Is refinement in itself an
    abomination? Is concrete rudeness the only thing that’s true?” William James, Pragmatism, p. 19.
    http://www.4shared.com/get/I7Hszucg/William_James_-_PRAGMATISM.html

  4. O que o Rorty me tem feito pensar é sobre o perigo do excessivo relativismo com um viés até utilitarista. Sei lá, como estabelecer critérios para dizer que essas adaptações, para além de sua forma intelectualizada, não são mais do que adaptações e não uma forma completamente instrumentalizada (consciente ou não) de dominação e opressão que quem “detém o conhecimento” utiliza para subjugar os demais?
    Falo isso desde o intelectual típico das academias, onde ele enxerga essa postura, que se acha mais livre e consciente que os demais, impondo sua forma de pensar como a ideal, até, sei lá, o mecânico que usa seu conhecimento privilegiado sobre carros (que não é considerado intelectual) para cobrar mais caro dos seus clientes.
    Acho que o Rorty enxerga isso entre os chamados “filósofos profissionais” (e até entre as ciências) e ajuda a desmistificar sua pretensa superioridade, mas eu não sei se ele vê problema em outras formas de conhecimento que, em última análise, são usadas da mesma forma e com efeitos até mais imediatos e não são tão debatidas, eu diria.
    Sei lá, acho que no fim se trata de um problema ético, onde a própria transformação de si não é suficiente.

    • Igor disse:

      A questão é buscar o que o Rorty chama de ‘ironismo’, isto é, a cessação dessa busca de parâmetros morais\éticos etc. transcendentes. É mais ou menos responder à pergunta de Ivan Karamázov – “Se Deus existe, então tudo é permitido?” – com um “a própria ideia de um Deus como perfeição moral já é indesejável e causa mais mal que bem.”

      Temer o relativismo moral é um pouco injustificado: as maiores atrocidades na história da humanidade foram cometidas por aqueles que criam em morais bem objetivas e queriam, por isso, justamente, eliminar as arestas – fossem elas cristãos, judeus, negros ou homossexuais – e construir um mundo perfeito.

      Agora, eu entendo que conhecimento pode ser usado como dominação e concordo contigo, mas não consigo pensar numa solução a não ser o aumento do nível de educação de todos os cidadãos.

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