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Arquivo mensal: novembro 2011

É verdade que, dada a condição de saída, ser pessimista quanto ao futuro dos países árabes após seus levantes revolucionários talvez fosse mais sensato do que acreditar em uma inversão de valores repentina e a aceitação geral de princípios democráticos e laicos tipicamente ocidentais.

Também é verdade que ficar exultante com a perda de rumo das coisas, com a colonização fundamentalista, só pela manutenção de um orgulho blasé – “Eu não falei?”, murmurado entre a nata da inteligência desiludida – é um traço inegável de mau-caratismo.

Acabo de ler um perfil de Antônio Carlos de Almeida Castro, “o Kakay”, advogado de poderosos\políticos, públicado na Piauí desse mês (novembro). A imagem do homem é uma variação do tema do conquistador, do homem genial e genioso que tem o dom do comando e dono de olhos que atiram faíscas. É, mais ou menos, um Napoleão em menor escala. Um Julien Sorel bem sucedido. Talvez seja válido inferir que a história conserve essa metáfora, variando-a nas cores, mas não na substância.

Quando, recentemente, o bilionário Steve Jobs morreu, uma onda de (falsa) comoção povoou a internet, os periódicos, os papos de bar etcétera. A figura de Jobs – independente, irresoluto, arrogante e bem sucedido – também é uma variação do tema. A comoção que sua morte causa talvez seja o indicativo de que, para algumas gerações, ele foi o Napoleão. O curioso de tudo isso é ver como os escrúpulos morais\éticos passam ao larga da discussão. Se não-tão-legal Bill Gates se tornou conhecido, em certa medida, por sua dedicação à filantropia, Jobs não abria mão de centavos de sua fortuna. Não que filantropia seja sinônimo de moral ilibada, mas tudo isso é sintomático.

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Ryonosuke Akutagawa não é um autor muito popular no âmbito nacional; mais conhecido é a adaptação de um de seus contos pelo conterrâneo Akira Kurosawa: Rashomon. Apesar disso, sua qualidade contraria sua fama: seus contos são um misto de realismo com toques fantásticos, perpassados, ao mesmo tempo, por um lirismo (sobretudo pessimista) e por uma contundente crítica social. Isso em uma atmosfera oriental, seja do Japão pós-ocidentalização, seja do Japão feudal, com sua mitologia própria. Escreverei algo mais substancial sobre ele em breve.

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A Pele que Habito (Almodóvar) é um conto macabro recheado de humor negro; uma espécie de encontro de Edgar Allan Poe com melodrama espanhol com um quê de angústia existencialista. Também tem algo de Kaufman (sobretudo Quero Ser John Malkovich). Resenha mais completa depois.

For a moment he had a fleeting picture of the strange glamour that had once invested the beaches. But the island was scorched up like dead wood—Simon was dead—and Jack had. . . The tears began to flow and sobs shook him. He gave himself up to them now for the first time on the island; great, shuddering spasms of grief that seemed to wrench his whole body. His voice rose under the black smoke before the burning wreckage of the island; and infected by that emotion, the other little boys began to shake and sob too. And in the middle of them, with filthy body, matted hair, and unwiped nose, Ralph wept for the end of innocence, the darkness of man’s heart, and the fall through the air of the true, wise friend called Piggy.

(GOLDING, W.; Lord of the Flies)


1.

A atuação da polícia militar, hoje, na Universidade de São Paulo, não é um ponto que flutua, solto, no espaço. Ele tem muitos responsáveis. E seria fácil apontar para a “mídia corporativo burguesa” (como alguns têm falado), em como ela manipulou imagens e fatos; mas aqui há um problema mais grave e menos óbvio.

2.

As injúrias contra a grande mídia (“corporativo burguesa”) trazem em si um erro latente, uma ingenuidade que ajuda a entender porque, depois de tudo o que aconteceu, o único possível exultante é o reitor João Grandino Rodas. O erro é simples, mas difícil: acreditar, quase cartesianamente, que há uma “verdade” a ser demonstrada; verdade “clara e distinta” que revela, para qualquer um que quiser ver, os estudantes como oprimidos e a reitoria\polícia como opressores. Há dois motivos para a massa não ver as coisas “como elas são”: a mídia manipula os fatos e\ou as pessoas são naturalmente conservadoras ideologicamente (no sentido marxista da palavra; isto é, tem uma espécie de “falsa consciência”, em contraponto à dos alunos, verdadeira).

Assim, o movimento estudantil se comportou, desde o começo da polêmica, como se não precisasse se justificar, como se não precisasse pensar suas ações em termos de suas consequências na opinião pública. O movimento estudantil não ofereceu, em momento algum, uma narrativa coerente e contraposta a divulgada na mídia.* Antes, alimentou a caricatura pintada pela Veja do vagabundo mimado, atirando mais lenha ao fogo, cavando a própria cova. Concretamente, o movimento depredou patrimônio público, furou decisões tiradas em assembleia, atirou pedras em jornalistas, isso ignorando erros de nível mais baixo, como posar com Ray Ban e Gap, levar um baseado gigante a um protesto, brandir livros na cara de polícias etc. Em suma, o total descaso de alguns estudantes com o que pudesse ser a opinião da comunidade externa à USP (e mesmo a interna que não participava diretamente) culminou no absurdo: a Universidade invadida por um contingente de 400 policiais armados e a opinião geral não só achando justo e normal, mas pouco.

3.

Talvez essa seja uma ótima oportunidade para repensar o movimento estudantil uspiano. Talvez seja hora de olhar criticamente para a caricatura que se tornou, para pensar em alguma forma de reestruturar as “assembleias democráticas”, que duram horas, com gritaria e são verdadeiros contra-exemplos de democracia. Talvez seja hora de tirar o megafone da boca dos mesmos grupelhos (minoritários) que pararam no tempo, resguardando-se em um pseudo-marxismo, pseudo-populismo, pseudo-foucaultismo. Se, como disse Drummond, “a hora mais bela/ surge da mais triste.“, talvez o momento tenha chegado, então.

4.

Paralelamente, há de se ressaltar o embrião nazista que, subitamente, brotou em tantos brasileiros. Li com nojo dezenas (mas foram centenas, milhares) de comentários da pior espécie nos dias antecedentes à ação da polícia. Comentários de um moralismo inescrupuloso, de uma sede de sangue patológica. O filme alemão A Fita Branca (Dass Weisse Band) sugeria, ao contrário da visão mais comum, que já havia um sentimento nazista inculcado no povo alemão. Que havia um ódio ao diferente latente, habilmente escondido entre camadas de falsa religião e civilidade artificial. A tese é análoga à de Golding em seu O Senhor das Moscas, que é mais universal: Golding advoga que apenas a ordem aparente esconde os animais que somos, que, em outras palavras, somos justamente o contrário do que Rousseau achava: maus por natureza, civilizados apenas por medo e conveniência. A internet vem corroborar essa tese. Há pouco tempo foi possível acompanhar uma onda de ódio virtual dirigida ao Ex-Presidente Lula; agora, de forma ainda mais exagerada, aos estudantes (que, embora errados, ainda são humanos).

Charles Darwin certamente ofendeu quando afirmou o grau de parentesco entre o homem e o macaco. O ofendido, no entanto, não foi o homem.

*E, quando digo isso, não advogo uma panfletagem ridícula e sem sentido, como a feita pelo PCO etc., mas um corpo de ações coerentes que possa ser reinterpretada de outras formas, que possa ser contada de outras formas. Da forma que foi, não bastou o esforço dos já habituais defensores do corpo estudantil, alguns professores da FFLCH, da São Francisco, ECA, FAU etc.; o esqueleto sobre o qual tentava se erguer uma história que legitimasse a ação estudantil era fraco, mal sustentava os próprios estudantes, quanto mais uma massa sedenta de sangue.