Múltiplas narrativas – Anotações sobre a USP e a política.

For a moment he had a fleeting picture of the strange glamour that had once invested the beaches. But the island was scorched up like dead wood—Simon was dead—and Jack had. . . The tears began to flow and sobs shook him. He gave himself up to them now for the first time on the island; great, shuddering spasms of grief that seemed to wrench his whole body. His voice rose under the black smoke before the burning wreckage of the island; and infected by that emotion, the other little boys began to shake and sob too. And in the middle of them, with filthy body, matted hair, and unwiped nose, Ralph wept for the end of innocence, the darkness of man’s heart, and the fall through the air of the true, wise friend called Piggy.

(GOLDING, W.; Lord of the Flies)


1.

A atuação da polícia militar, hoje, na Universidade de São Paulo, não é um ponto que flutua, solto, no espaço. Ele tem muitos responsáveis. E seria fácil apontar para a “mídia corporativo burguesa” (como alguns têm falado), em como ela manipulou imagens e fatos; mas aqui há um problema mais grave e menos óbvio.

2.

As injúrias contra a grande mídia (“corporativo burguesa”) trazem em si um erro latente, uma ingenuidade que ajuda a entender porque, depois de tudo o que aconteceu, o único possível exultante é o reitor João Grandino Rodas. O erro é simples, mas difícil: acreditar, quase cartesianamente, que há uma “verdade” a ser demonstrada; verdade “clara e distinta” que revela, para qualquer um que quiser ver, os estudantes como oprimidos e a reitoria\polícia como opressores. Há dois motivos para a massa não ver as coisas “como elas são”: a mídia manipula os fatos e\ou as pessoas são naturalmente conservadoras ideologicamente (no sentido marxista da palavra; isto é, tem uma espécie de “falsa consciência”, em contraponto à dos alunos, verdadeira).

Assim, o movimento estudantil se comportou, desde o começo da polêmica, como se não precisasse se justificar, como se não precisasse pensar suas ações em termos de suas consequências na opinião pública. O movimento estudantil não ofereceu, em momento algum, uma narrativa coerente e contraposta a divulgada na mídia.* Antes, alimentou a caricatura pintada pela Veja do vagabundo mimado, atirando mais lenha ao fogo, cavando a própria cova. Concretamente, o movimento depredou patrimônio público, furou decisões tiradas em assembleia, atirou pedras em jornalistas, isso ignorando erros de nível mais baixo, como posar com Ray Ban e Gap, levar um baseado gigante a um protesto, brandir livros na cara de polícias etc. Em suma, o total descaso de alguns estudantes com o que pudesse ser a opinião da comunidade externa à USP (e mesmo a interna que não participava diretamente) culminou no absurdo: a Universidade invadida por um contingente de 400 policiais armados e a opinião geral não só achando justo e normal, mas pouco.

3.

Talvez essa seja uma ótima oportunidade para repensar o movimento estudantil uspiano. Talvez seja hora de olhar criticamente para a caricatura que se tornou, para pensar em alguma forma de reestruturar as “assembleias democráticas”, que duram horas, com gritaria e são verdadeiros contra-exemplos de democracia. Talvez seja hora de tirar o megafone da boca dos mesmos grupelhos (minoritários) que pararam no tempo, resguardando-se em um pseudo-marxismo, pseudo-populismo, pseudo-foucaultismo. Se, como disse Drummond, “a hora mais bela/ surge da mais triste.“, talvez o momento tenha chegado, então.

4.

Paralelamente, há de se ressaltar o embrião nazista que, subitamente, brotou em tantos brasileiros. Li com nojo dezenas (mas foram centenas, milhares) de comentários da pior espécie nos dias antecedentes à ação da polícia. Comentários de um moralismo inescrupuloso, de uma sede de sangue patológica. O filme alemão A Fita Branca (Dass Weisse Band) sugeria, ao contrário da visão mais comum, que já havia um sentimento nazista inculcado no povo alemão. Que havia um ódio ao diferente latente, habilmente escondido entre camadas de falsa religião e civilidade artificial. A tese é análoga à de Golding em seu O Senhor das Moscas, que é mais universal: Golding advoga que apenas a ordem aparente esconde os animais que somos, que, em outras palavras, somos justamente o contrário do que Rousseau achava: maus por natureza, civilizados apenas por medo e conveniência. A internet vem corroborar essa tese. Há pouco tempo foi possível acompanhar uma onda de ódio virtual dirigida ao Ex-Presidente Lula; agora, de forma ainda mais exagerada, aos estudantes (que, embora errados, ainda são humanos).

Charles Darwin certamente ofendeu quando afirmou o grau de parentesco entre o homem e o macaco. O ofendido, no entanto, não foi o homem.

*E, quando digo isso, não advogo uma panfletagem ridícula e sem sentido, como a feita pelo PCO etc., mas um corpo de ações coerentes que possa ser reinterpretada de outras formas, que possa ser contada de outras formas. Da forma que foi, não bastou o esforço dos já habituais defensores do corpo estudantil, alguns professores da FFLCH, da São Francisco, ECA, FAU etc.; o esqueleto sobre o qual tentava se erguer uma história que legitimasse a ação estudantil era fraco, mal sustentava os próprios estudantes, quanto mais uma massa sedenta de sangue.

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5 comentários
  1. Caio Mello disse:

    Você tem muita fatura na escrita, meu querido. Acho que a reunião de ontem a noite, no saguão da História foi um exemplo de que o momento ruim foi visto e agora aurora uma saída. Drummond sorri de soslaio? Talvez. Mas a pergunta persiste a cada instante: E agora, José? Além de suas especulações sobre o nome Homem. “Mas como quer o homem ser destino, fonte?”

    • Igor disse:

      É, Caio, me disseram.

      Só resta esperar que o Drummond que esteja sorrindo, não o Adorno. Resta confiar na profecia dos versos do Hölderlin.

  2. Primrose disse:

    Igor, eu não entendi direito quando você critica os estudantes e quando critica aqeuels que veem o movimento de fora…

    Não li quase nada a respeito disso. Sei que a mídia fala o que quer e coloca a bandeira da maconha em primeiro lugar – é claro que para alguns estudantes esta também seja a bandeira, mas não sei se eles são a minoria.

    A partir da sua reflexão, como, então, o movimento pode ser pensado? Qual a bandeira real que deveria ser levantada?

    O movimento é ilegítimo ou não?

    Como divulgar um ideal coeso para toda a USP? Se na PUC que é um ovo já é muito difícil como isso pode ocorrer na usp, que além de imensa é mal urbanizada?

    Só alguns cutucões!
    Um beijo,
    Irene.

    • Igor disse:

      Bom, claro que eu não teria dados estatísticos para corroborar minhas intuições, mas a baixa adesão estudantil ao movimento, desde o começo, só revela que tinha pouca gente disposta a lutar pelas bandeiras que estavam sendo levantadas. Eu acho muito crítico alguns estudantes terem “vestido a carapuça” da mídia e passar a defender legalização da maconha etc. Mas quase todas pessoas com quem conversei achavam isso delírio, então prefiro acreditar que sejam minorias. No fim, me parece que a política estudantil virou coisa de minoria porque o discurso, muitas vezes anacrônico ou exagerado, afasta um monte de gente.

      Como está, o movimento fica entre o legítimo e o ilegítimo.

      A USP tem n problemas estruturais gravíssimos, desde a contratação de professores até a manutenção das estruturas administrativas. Lutar contra isso seria, na minha opinião, o ideal… Mesmo nosso reitor foi eleito contra a votação (que já é elitista e considera votos apenas de professores titulares), colocado lá pelo Serra. Isso, independente da gestão dele, é completamente questionável, por exemplo.

      Quanto a divulgação, aí não sei… hahah Imagino que as entidades estudantis devessem atuar mais na internet, que é uma forma muito fácil, rápida e barata de divulgação.

      Obrigado pelas críticas! Só assim que eu consigo clarear meu próprio pensamento. Beijo! =*

  3. É preciso não só repensar o movimento estudantil, metonímia da política como um todo (ou não?), conquanto agir. Mas como? O primeiro passo é superar o historicismo do movimento estudantil. É preciso ter em vista a diferença entre o radicalismo e o radical, aquele que está na raiz.

    *

    Como já discutimos, a semente de nazismo que nasce na sociedade é como uma bactéria que se reproduz sob determinada temperatura: o que os radicais fazem é procurar faíscas para que atinjamos um ponto em que é preciso se decidir entre o menos pior, entre dois grupos, duas formas, com as quais não podemos concordar de modo algum. É isso o que alguns chamam de ‘politização’ da sociedade.

    *

    Sempre interessantes reflexões!

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