Sócrates, o brasileiro e o Brasil.

De repente, o Brasil se lembrou do Brasileiro – o Sócrates -. Pena: teve que morrer para ser lembrado. O francês Le Monde publicava um perfil de título: “Socrates: le romantique et le révolutionnaire“. E começava assim:

S’il est un footballeur qui, à l’heure de sa nécrologie, est difficile à réduire à une de ses facettes, c’est bien Socrates, décédé ce week-end. Médecin, demi-frère de Rai, alcoolique avoué dans ses dernières années, il fut un footballeur exceptionnel et intimement lié au Brésil romantique de Telê Santana, mais aussi un insurgé lorsqu’il prit la tête, avec quelques autres, de la “Démocratie corinthiane”, une expérience d’autogestion au sein du club des Corinthians de Sao Paulo qui constitua un spectaculaire mouvement d’opposition à la dictature militaire d’alors.

Pois é: em tempos de rótulos – “As existências são poucas: / Carteiro, ditador, soldado.“, dizia Drummond -, Sócrates teve a audácia de ir além deles. E pagou por isso. Morreu relativamente novo. Sofreu. Mesmo em sua vida abreviada, acumulou incoerências. Sócrates foi aquela “metamorfose ambulante” para não ser a etiqueta que separa as seções da livraria.

E que Brasil foi deixado por esse Brasileiro? Talvez um onde não houvesse mais lugar para ele. E não é apenas no futebol, com seus empreendimentos messiânicos, seus jogadores que são só isso: jogadores, sua violência endêmica. Nossa academia tardia talvez tivesse muito a aprender com Sócrates; sua sede e seu ecleticismo. Os intelectuais se colonizaram. Passam anos enfurnados nas bibliotecas, alternando-as com colóquios desinteressantes, dissertações que ninguém nunca lerá sobre o “conceito de X, na obra Y do fulano Z”, ou puxando o saco de um superior que, mais adiante, lhe abrirá a porta para um poleiro em universidade pública, onde ele se ajeitará e morrerá coberto de pó. Sócrates não se contentou em ser jogador: cursou medicina, escreveu, cantou (mal), militou na política. Nossa academia se contenta em ser academia: é um moto-perpetuo que replica a si mesmo. E só.

Podemos ser mais. Queremos?

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