Sobre Rir e Esquecer

O vazio? Mas então o que torna tão pesado seu olhar? Ele não está pesado com lembranças, explica o rapaz, mas com remorsos. Tamina nunca se perdoará por ter esquecido.
“E o que devo fazer?”, pergunta Tamina.
“Esquecer seu esquecimento”, responde o rapaz.
Tamina sorri com amargura: “Explique-me como devo agir”.
“Você nunca teve vontade de partir?”
“Claro que sim”, confessa Tamina. “Tenho uma terrível vontade de partir. Mas para onde?”
“Para um lugar onde as coisas sejam leves como a brisa. Onde as coisas tenham perdido seu peso. Onde não haja remorsos.

(KUNDERA, Milan. O Livro do Riso e do Esquecimento. p. 192)


Talvez alguém possa definir a filosofia como uma espécie particular de gênero literário; gênero no qual os protagonistas não seriam personagens, mas conceitos. Os conceitos, inseridos em uma narrativa, tem vida própria; relacionam-se com uns, negam outros, juntam-se dando origem a um terceiro etc. São como personagens humanos. Mas, se é assim, como classificar “O Livro do Riso e do Esquecimento”, de Milan Kundera, cuja narrativa fala sobre humanos, mas os personagens são conceitos?

Alguém mais purista, ávido por classificações precisas, não hesitará em colocá-lo sob a etiqueta da literatura. E se essa marcação satisfaz a angústia da taxonomia, talvez não satisfaça um olhar que busque na obra antes um sentido do que um aspecto formal. A narrativa do livro, dito romance, é composta de sete pequenas partes desconexas em termos físicos: as personagens de cada trecho não se tocam, não se falam e nem se conhecem. Se estão unidas em um livro que se pretende mais que uma coletânea de contos, é porque a cola que as liga é relativa às suas vivências. Cada conto é uma reflexão idiossincrática sobre temas conceituais abstratos, como o peso da memória ou o papel semântico do riso. Ao invés de refugiar-se no campo do abstrato, nas discussões filosóficas ou lexicógrafas sobre o que é ou significa realmente cada conceito, Kundera contribui à reflexão mostrando conceitos na concretude da vida. O leitor é levado, então, ao reconhecimento de que cada conceito não transcende a vivência; ao contrário, se dá através da experiência. A gênese do conceito é a experiência. E, por sua carga evidente de idiossincrasias, o conceito não existe para além de cada um, mas só em cada um, em cada aparição apresentando-se de forma distinta. No entanto, seria um erro concluir que as vivências são incomunicáveis e cada um está alienado em uma ilha de experiências privadas e que a linguagem não tivesse qualquer valor semântico. “Nenhum homem é uma ilha”, disse John Donne. Se, a despeito de falar do individual, ainda cabe falar de generalidades – o “Riso”, o “Esquecimento” – é porque há um núcleo de identidade nessas palavras. Olhar para elas através das lentes de cada personagem não é negar isso, mas olhar para uma escultura de seus diversos ângulos e reconhecer que não há um definitivo. Há apenas ângulos, como há apenas narrativas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: