A Narrativa pela Verdade (Corpos e Mentes)

1.

Tentando esboçar o que seria a filosofia americana, ou a filosofia anglófona – “Analítica” – não raro se depararia com uma descrição que ressaltasse seu caráter naturalista, que conduziria, por fim, a uma valoração da ciência em detrimento de outras formas de conhecimento, de saber, de produção humana. Citando Quine: “[…] philosophy of science is philosophy enough.” Em oposição, estaria uma filosofia alemã que seria caracterizada, sobretudo, por uma desconfiança da ciência e da lógica, cujo exemplo seria Heidegger. Forçando uma historiografia do conflito, poderíamos descrever os dois “modelos” de filosofia como se originando da filosofia iluminista e da filosofia romântica, respectivamente.

No entanto, Richard Rorty argumenta pela dissolução desse binômio através da manutenção do naturalismo – despindo-se da desconfiança quanto às ciências naturais – somada a uma eliminação do “reducionismo” adotado pela postura analítica. O naturalismo (ou fisicalismo) é definido nos seguintes termos: “[…] I shall define a ‘physicalist’ as someone who is prepared to say that every event can be described in micro-structural terms, […]“. Nesse sentido, o reducionismo seria a crença de que essa redescrição de um objeto por uma linguagem microestrutural teria papel ontológico. Ou seja, podemos nos referir a um determinado objeto em termos de “mesa” ou “aglomerado de átomos agrupado de tais e tais formas, em tais e tais condições”, mas só a semântica da segunda descrição tem valor ontológico efetivo. Grosso modo: existem átomos, mas não faz sentido falar em mesas. Se o problema parece trivial sob esse exemplo, ganha corpo quando aplicado a outros dilemas, o paradigma “mente” x “corpo”, por exemplo. Se a mente pode ser reduzida aos impulsos neurais – à “química do cérebro”, como já imaginava Freud – então uma linguagem adequada (com compromisso ontológico) simplesmente eliminaria essa palavra. Também a mesa seria eliminada.

O “não-redutivismo”, por outro lado, assume o naturalismo, mas rejeita o compromisso ontológico da linguagem e torna o problema da tradução das macro-perspectivas (mesas e mentes) em micro-perspectivas (“átomos e vazio”, como queria Demócrito) em um problema de fundo linguístico-pragmático. Isso significa dizer que não há um privilégio de existência em falar de um objeto enquanto conjunto de átomos ou enquanto mesa, há somente um uso adequado e outro inadequado para determinadas situações. Dificilmente se poderia abdicar do termo mesa, substituindo-o por conjunto de átomos, sem alguma perda semântica. Também dificilmente isso seria a maneira mais adequada de falar de um objeto para um grande número de ocasiões; assim, o termo se mantém dentro da linguagem por se prestar de forma positiva ao uso em determinados jogos de linguagem. Da mesma forma, seria difícil imaginar como a eliminação da “mente” pudesse ampliar o alcance da linguagem. Isso não significa que toda linguagem ou termo é insubstituível, mas que o único critério para regular sua permanência no horizonte do uso é sua contribuição para a expressão enquanto ferramenta. Ou seja, um critério de ordem pragmática que não faz menção à ontologia.

Após adotar esse critério, Rorty comenta a distinção, que remonta a Platão, de verdades de “primeira e segunda classe”. A distinção estaria calcada na crença de que parte da verdade teria compromisso ontológico e falaria de coisas que “realmente existem”, enquanto outra parte seria verdade apenas “por cortesia”. Para os fisicalistas redutivistas isso significaria dizer que, enquanto falar de partículas elementares seria uma verdade de primeiro grau, falar de outros objetos, tais quais valores éticos e estéticos poderia, no máximo, configurar uma verdade de segundo grau. Um discurso sobre esses objetos nunca poderia ser Verdade por não se relacionar a objetos existentes. Em outras palavras, haveria duas formas de falar do mundo: a direta, o mundo como ele “realmente é”; ou a indireta, que, embora conveniente, falaria do mundo apenas de forma metafórica. Segundo Rorty, não faz mas sentido, depois de desenvolvida a teoria da linguagem de Davidson, seguir com o critério. Ele diz: “Davidson suggests that we just drop this distinction between first – and second-class truth – between sentences which express ‘matter of fact’ and those which serve a certain purpose and those which serve other purposes.”

2. O papel da metáfora.

Segundo Davidson, a metáfora é uma expressão sem valor semântico. A metáfora não tem, inicialmente, qualquer sentido. No entanto, seu uso não é estéril: a metáfora, conforme se naturaliza na linguagem, acaba abandonando seu critério metafórico e se canonizando em uma língua. Ou seja, a metáfora ganha valor semântico e morre, dando origem a novas expressões. Na interpretação de Rorty, essa teoria da metáfora não se presta apenas ao linguístico mas, em amplo sentido, às descrições de mundo – as da filosofia, das ciências, das artes, da literatura etc. Assim, as revoluções científicas (Kuhn) e também nas outras formas de expressão humana seguem o padrão da vida da metáfora davisoniana. Quando uma nova descrição de mundo surge, ela faz uso de termos existentes articulados de uma forma completamente nova que, à primeira vista, pode soar conceitualmente confusa ou “apenas uma maneira de falar”. Ela torce conceitos já cristalizados e em uso efetivo de modo que seu sentido original não continua evidente. E, embora esse emprego seja questionável, talvez essa nova descrição se cristalize e se torne o ponto de partida para novas reflexões. Talvez fosse difícil auferir credibilidade à cosmologia de Copérnico em um ambiente onde a Ptolomaica-Aristotélica já se apresentava como dada; mas, após sua sugestão, a própria rede de crenças e usos da linguagem se modificou para acomodá-la, expulsando a antiga.

Podemos entender a proposição de Rorty – assim como a de Kuhn, no caso das ciências – como uma substituição de termos: uma substituição da “Verdade” pelas “narrativas”. O mundo comportaria um sem-número delas, úteis para diferentes finalidades. E não caberia mais avaliar a filosofia (entre as outras produções humanas) em termos de correspondência ao “mundo como ele é”, senão em termos de uma narrativa que pudesse oferecer novos insights àquele que a estudasse. É o que já se fazia com a literatura.

No conto “Dentro do Bosque”, Ryonosuke Akutagawa se omitia da narração. Ao invés disso, compunha a integralidade do conto com alguns relatos de diversas personagens sobre um determinado fato: um assassinato. Talvez devêssemos olhar para a filosofia como olhamos para o conto de Akutagawa: com suspeita e deleite.

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