E se…?

Você provavelmente não conhece Karel Čapek (pronuncia-se “tchápek”), escritor Tcheco, nascido em 1890 e falecido, prematuramente, em 1938. Se conhece, provavelmente é por sua apócrifa invenção do termo robot, cujo verdadeiro criador foi seu irmão, fato que Čapek, durante a vida, sempre lembrava. O termo apareceu em uma peça de ficção científica onde a paisagem era um futuro distópico nos moldes de Huxley ou Orwell. A ficção científica, aliás, foi o gênero que mais marcou o escritor, mas suas Histórias Apócrifas não são, rigorosamente, pertencentes ao grupo. Rigorosamente porque talvez os contos compartilhem com a ficção um elemento central: o “E se…”. Em livros como Crônicas Marcianas (Bradbury), Admirável Mundo Novo (Huxley) etc., o cenário traçado parece emergir do solo e ganhar vida através, não do Verbo, mas da pergunta: “E se…?” – “E se os governos totalitários se generalizarem?”; “E se o controle da vida se estender de modo que até a (in)felicidade dos cidadãos seja um problema de Estado?”; “E se o homem conquistar Marte?”. As perguntas de Čapek começam com as mesmas duas palavras – “E se…?” -, mas viram os olhos para o passado, histórico e literário. “E se os soldados gregos não quisessem lutar a batalha de Troia?”; “E se Julieta não houvesse se matado?”; “E se já na ‘idade das cavernas’ se falasse em decadência do homem e dos tempos?”.

Na boa ficção científica, os demônios do futuro nos fazem refletir sobre os demônios do presente, sobre as escolhas que fazemos e o caminho para onde elas apontam. Na ficção apócrifa de Čapek – que varia entre o humor nonsense e a seriedade política; entre as amenidades do cotidiano aos profundos pensamentos religiosos – é um novo olhar sob o passado que nos fará reconsiderar o presente. E como não o fazer, defronte de tamanha iconoclastia? Nos contos que compõe seu livro, Čapek dissolve a grandeza do passado, oferecendo olhares alternativos – a irmã de Maria, que cozinhava e lavava para Jesus, mas teve suas aflições por ele ignoradas – agudos como a ponta de uma navalha que, assim, desfolham a fina camada áurea das histórias oficiais. Faz isso ao mesmo tempo em que busca brilho em frestas pouco exploradas – a virtude de um habitante de Sodoma; a fé de Pilatos -. No fim, a soma das partes é um equilíbrio na balança que humaniza a história – não ao modo do acadêmico: cuidadoso, laborioso -, mas com a pena livre do inventor.

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