O Lúdico e o Divino no Mercado

O jogo, propõe Johan Huizinga, deve se opor à seriedade. Mas é maior que ela: a seriedade só existe em oposição ao jogo, que existe por si e, mais importante, para si. O elemento lúdico se associa a noções como divertimento, competição, brincadeira; mas, anteriormente a isso, se assenta em uma espécie de terreno mágico que só existe à parte da vida ordinária. O terreno e o tempo do jogo são sagrados: o campo de futebol é inviolável e soberano, possui suas próprias regras e rituais, onde se invalidam outros princípios da vida comum. O lugar temporal e espacial do jogo tem, também, sua própria regimentação interna, seus próprios tribunais, suas próprias castas. Tudo isso não é posto, mas pressuposto: o haver de todas essas idiossincrasias não é algo que soma ao jogo, mas o que torna o próprio jogo possível. Não obstante, essas características são respeitadas com um grau de consciência de seu aspecto fantasioso, arbitrário, de faz-de-conta. Assim como o espectador que sabe que não vê um príncipe dinamarquês ao assistir Hamlet, bem como está ciente de que nada o separa do palco, também o jogador joga conforme as regras para tornar o próprio jogo possível (como são esses comportamentos que tornam o próprio teatro possível). Tanto o jogador como o espectador – os participantes, enfim – encarnam personagens e, no limite, sabem que não são verdadeiramente elas. Daí a oposição à seriedade: a diferença entre o ator e o louco é que enquanto um finge ser Napoleão, ação que, no limite, é uma brincadeira, o outro acredita seriamente que é Napoleão. Dentre as esferas da cultura moderna, algumas práticas da economia titubeiam entre diversas posições possíveis, ora assumindo o caráter lúdico, ora negando-o com veemência.

Um dos fantásticos habitantes do Discworld, mundo de fantasia criado pelo britânico Terry Pratchet, o curioso Twoflower, define sua profissão como apostador. Depois, explica aos perplexos do que se trata: ele aposta com fulano que a casa (de fulano) não pegará fogo dentro de um tempo determinado. Se estiver certo, ganha a aposta e um prêmio em dinheiro; se estiver errado, paga uma determinada quantia a fulano. Claro que a essa altura o leitor já se apercebeu de que ele não passa de um corretor de seguros, mas o aspecto cômico e intrigante reside justamente aí: que a ideia de seguro esteja tão próxima, senão superposta, à ideia de aposta. Parece que o único elemento que difere as duas é a seriedade: amigos no bar apostam no time de futebol, já o homem sério segura seu automóvel para diminuir seus riscos. O primeiro caso é uma brincadeira; o segundo, uma espécie de prudência. É um trabalho, lato sensu. Essa semelhança entre o seguro e as apostas poderia ser, mas não é, fortuita. Em um capítulo de seu Homo Ludens, Huizinga pretende demonstrar como o lúdico é mais originário que a cultura e como a segunda se desenvolve do primeiro. Surpreendentemente, ele narra a origem desse tipo de atividade: as apostas entre companheiros de bebida!

[…] duas formas de acordo comercial, baseado na expectativa de um cumprimento futuro, terem origem direta na aposta, […] O final da idade média assiste, tanto em Gênova como em Anterúpia, ao surgimento do seguro de vida sob a forma de apostas sobre futuras eventualidades de caráter não econômico. Apostava-se, por exemplo, ‘sobre a vida e a morte de pessoas, o nascimento de um menino ou uma menina, o resultado de viagens e peregrinações, a conquista de várias terras, praças, fortes ou cidades’. Este tipo de contrato, embora houvesse já assumido um caráter puramente comercial, foi diversas vezes proibido sob a alegação de tratar-se de jogo ilegal, entre outros por Carlos V. […] E ainda no século CVII os contratos de seguro de vida eram conhecidos pelo nome de ‘apostas’.” (Huizinga, p.60~61)

Assim, como o pêndulo, a forma de consideração desse tipo de atividade variava: vista ora com seriedade, ora enquanto brincadeira.

De forma parecida funcionam os mercados, os corretores de bolsa, os jogadores. Em tempos de aparente prosperidade, sabemos como os jogadores das bolsas competiam entre si, embriagados pela fama e pela glória que o sucesso lhes concedia. Quanto a isso, Scott Fitzgerald dá um bom testemunho da vida anterior ao crash da Bolsa de Nova Iorque em seu conto Babylon Revisited, triste relato de um jogador que, imerso no caos daquela atmosfera, perde tudo com a crise, incluindo a mulher e a filha. No entanto, há uma tendência contrária, em ver nos profissionais do mercado homens de grande respeitabilidade, conferida, sobretudo, por sua seriedade. Eles tratam de problemas reais, “coisa de gente grande”.

A oposição entre realidade e irrealidade, bem como a paralela dicotomia entre criança e adulto são, justamente, importantes marcos regulatórios na divisão entre o jogo e a seriedade. É principalmente a crença no que se faz, e não o faz-de-conta, que caracteriza a seriedade. Assim, não surpreende a comparação, feita pelo teólogo americano Harvey Cox, entre o moderno Mercado e Deus. À semelhança dos antigos, os sacerdotes do mercado teriam um credo oficial (satirizado por Cox através da citação de Tertuliano: “Credo quia absurdum est” [“Creio porque é absurdo”]); diagnosticariam e transmitiram a vontade e o ânimo do mercado (que, como os deuses, poderia estar “apreensivo”, “acalmado”, “nervoso” etc.) e perpetrariam sacrifícios (pacotes de incentivo etc.) para aplacar sua ira. Não surpreende, sobretudo, porque o ritual também emerge do lúdico e compartilha com ele muitas de suas características marcantes, como a distinção da vida cotidiana, as regras próprias, a performance etc.

Muito embora a seriedade se apresente em oposição ao jogo, seria errôneo inferir disto que o jogo é leviano, descompromissado etc. Há na própria guerra um caráter eminentemente lúdico, assim como diversas formas de competições terminam com a morte dos derrotados. Um ator leva sua performance a sério, assim como o dançarino e o atleta. A oposição entre jogo e seriedade significa, apenas, que há uma consciência, mesmo que suma durante intervalos de tempo, que aquilo não é o real; ou, pelo menos, não é a vida cotidiana. É outra coisa. A insanidade das bolsas de valores, dos investidores etc., consiste em combinar a atuação ensandecida daquele que está envolvido no lúdico com a ausência de qualquer lampejo de reflexão sobre o caráter, muitas vezes absurdo, do que se faz.

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4 comentários
  1. Muito bom! Parabéns.
    Gostaria só de perguntá-lo: eu tendo a achar que Harvey Cox assume uma postura ‘moral’ oposta à de Huizinga, embora ambos parecem apontar para que o acontecimento ‘real’, ‘verdadeiro’, ou ‘que realmente dita nossas vidas’ do mundo atual (ok, o ‘mundo atual’ de Huizinga é outro, mas acredito ser possível mesmo assim continuar na comparação, na medida em que ele se mantém atual, como o próprio artigo ‘The Market as God’, aqui citado, prova) é o mercado. Pois por um lado vejo Huizinga empolgado de alguma forma em perceber que ainda há o ‘espírito’ do jogo e que o seu lugar no mundo moderno é ‘o mercado’ – acredito que ele faz isso também como um argumento para negar que a segunda guerra mundial e, principalmente, os nazistas, tenham algo desse espírito. Por outro lado acredito que Cox, ao chamar atenção para uma religião que não é vista como religião e onde se trava do verdadeiro embate de civilizações, está se aproximando mais do que Huizinga de um marxismo – pensado em sentido amplo e principalmente em relação à sua vertente pós-moderna francesa, quer dizer, de temas como fetiche, sistema, etc – e, portanto, de uma crítica ao capitalismo, ao ‘sistema’, por meio da sua visão de que o mercado é a religião de nossa época: poderia se falar em uma mistificação da matéria, um materialismo religioso/dogmático? (o que, por sua vez, o afastaria do marxismo). Enfim, correndo o risco, após tão grande comentário, de ser um chato-de-palestra virtual, gostaria de saber como você vê essa questão.

    • Igor disse:

      Só pra deixar registrado que li o seu comentário e responderei em breve! haha

    • Igor disse:

      Primeiro, perdão pela demora da resposta. 😛 Agora à ela.

      Eu não acho que haja uma grande tensão na interpretação ‘moral’ do aspecto lúdico do mercado entre o Cox e o Huzinga porque, no meu entender, o Huizinga aponta esse aspecto mais como uma degeneração, e que pode ser chamada de jogo apesar de vários contras. Ele mesmo diz: “Cada vez mais fortemente se nos impõe a triste conclusão de que o elemento lúdico da cultura se encontra em decadência desde o século XVIII, época em que florescia plenamente. O autêntico jogo desapareceu da civilização atual, e mesmo onde ele parece ainda estar presente trata-se de um falso jogo, de modo tal que se torna cada vez mais difícil dizer onde acaba o jogo e começa o não-jogo.” (229)

      No que pude entender, a crítica ao nazismo (na verdade, a crítica ao Carl Schmitt), está direcionada a interpretação da guerra como uma coisa muito séria, erigida no princípio “amigo\inimigo”. A posição é paradoxal porque se, por um lado, a posição do Schmitt se alinha a um tribalismo primitivo, que só se sustenta no lúdico, ela reivindica uma seriedade incompatível, por esse mesmo motivo. A seriedade, parece dizer o Huizinga, está na observância das coisas a partir do viés moral e qual seja ele fica pouco claro no livro. E resta lembrar que ele evoca Platão para negar a afirmação de Schmitt que a guerra seja uma coisa séria; pelo contrário, afirma, a paz é uma coisa séria – e conduzir a vida assim resulta em não tolher-lhe o aspecto lúdico.

      Há um problema em comparar a leitura do Cox com a do Huizinga que é o do anacronismo: certamente, por mais que hajam paralelos, é difícil equiparar o mercado de hoje com o de 38, data de publicação do Homo Ludens. Apesar disso, eu concordo que o Cox se aproxima mais do marxismo, embora imagino que, por ser teólogo, não embarque no materialismo. Aliás, quanto a isso, há um momento do livro (Homo Ludens) onde se lê:

      “Em consequência, pôde aparecer e mesmo ser acreditada a lamentável concepção marxista segundo a qual o mundo é governado por forças econômicas e interesses materiais. Este grotesco exagero da importância dos fatores econômicos foi condicionado por nossa adoração do progresso tecnológico, o qual por sua vez foi fruto do racionalismo e do utilitarismo, que destruíram os mistérios e absolveram o homem da culpa e do pecado. Mas esqueceram de libertá-lo da insensatez e da miopia, e a única coisa de que ele passou a ser capaz foi de adaptar o mundo à sua própria mediocridade.” (213)

      Colocando à parte algum conservadorismo cultural, essa afirmação é importante para distanciá-lo da tendência – arbitrária e simplificante, na minha opinião – de subordinar todas as esferas da vida a uma outra, como se houvesse uma notável hierarquia de vassalagens e ordens de importância. Lembro de uma aula do Werle onde alguém debateu um bom tempo revogando a interpretação do Heidegger da ciência como determinante do Ocidente contemporâneo, afirmando que, na verdade, a ciência moderna era subproduto do capital etcétera. Dessa ortodoxia vejo o Huizinga bem longe, até porque ele se recusa a explicar o jogo e o fator lúdico como subprodutos de outra coisa. (Sei que esse último parágrafo não diz respeito a sua pergunta, em um sentido estrito, mas tinha pensado nisso e já enganchei na resposta.) 😛

  2. Para registrar que também li sua resposta e que também preciso de tempo para respondê-lo. E aproveitar para apontar que justamente porque o jogo no mercado é uma degeneração que vejo os dois apontando em direção oposta. De maneira simples, poderia dizer que para que o mercado não fosse uma degeneração, para Huizinga, seria preciso aprofundar o aspecto de ritual do mercado (e pensando em um mercado ideal que nunca existiu nem existirá), enquanto para Cox trata-se de verificar os o mercado como um Deus da religião moderna, dos teoricamente ateus, niilistas. Nesse sentido ele se aproxima da crítica marxista ao liberalismo econômico, mas também parece estar usando um meta-argumento: ‘ah, vocês estão dizendo que eu sou religioso e por isso minha opinião não vale nada? Então vamos ver se vocês são tão independentes de um divino quanto dizem’, algo como ‘vocês são ateus da boca para fora’ e que tende a levar ao argumento de que se é para ter uma religião, que seja uma espiritual (e ai ele se afasta da marxismo, obviamente). Se minha visão não estiver tão deturpada (por Deus), tendo a achar a posição do Huizinga bem mais profunda e interessante. Mas gostaria de responder mais detalhadamente sua resposta tendo essa direção geral!

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