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Arquivo mensal: fevereiro 2012

Mario: Remember the Mario you love? Well, this isn’t him. This is Newt Gingrich incarnate. He can’t be trusted. He is among the privileged, and I could swear that he cheats. He campaigns as a Washington outsider against the “elite,” although he has been on Freddie Mac’s payroll since he resigned as Speaker in 1999, during which time its stock price plummeted from $100 a share to around 0.20 cents.

A citação é de Occupy Fortune Street, artigo divertido da KillScreen Magazine.

A folha branca, dirão algum dia os físicos, gera um campo gravitacional próprio. Ou melhor, há um magnetismo, uma atração seletiva; é, isso: não é qualquer globo ocular ou mão que treme e se agita frente ao espaço branco, virtual ou não. Só aqueles com a marca na testa entenderiam o chamado, na linguagem de alguma saga.

O chamado. O escolhido não escolhe – daí o nome -, nem pode recusá-lo. A sensibilidade ao branco do papel, essa maldição, não se cura nem sublima. Ela persiste. E, ao contrário do que podem pensar, não é ele que procurou a folha, em primeiro lugar; mas o inverso: ela que o encontrou em sonho, visão, acaso. A partir daí, sua vida se transformou em inferno; como o paranoico que vê signos em tudo, ainda que tentasse fugir, o que escolhia via o insuportável vazio por onde quer que andasse. Até mesmo dentro de si, dizem.

Mas como condição especial, maldição, não pode ser contraída apenas pela vontade. Os que tentam acabam percebendo que o fazem por alguma vontade interna, por desejo de ser como o escolhido em algum aspecto. Não dá certo: eventualmente, atribulados em meio a outras coisas, os que apenas tentam preencher as lacunas brancas do mundo acabam esquecendo a secreta linguagem de decifrá-las em qualquer lugar. Abandonam a atividade ao esquecimento.

Mas os autênticos, esses permaneciam. Através dos séculos, a insônia e a loucura os dominavam. Convulsos, por mais que tentassem, não conseguiam abandonar a inglória tarefa de construir mundos no vácuo dos espaços brancos.

Nosso tempo foi aquele onde a figura do sábio – o que leva a vida de modo superior, envolvido em uma certa aura de misterio e respeitabilidade, cujo conhecimento vincula-se, diretamente, à vida – foi substituída por outra: a do gênio. O sábio atravessa uma longa jornada para, ao fim da vida, atingir seu potencial (embora figuras que se encaixem no tipo, como Siddhartha Gautama e Jesus, façam exceção à regra); já o gênio é o vencedor de uma loteria genética. Nasce com um dom muito agudo e, sem nunca conseguir dominá-lo, dificilmente se torna algo a ser seguido: muitos sucumbem em meio ao turbilhão da vida. Muitas vezes, os gênios sequer se importam com seu dom ou com seu uso; outras, o gênio é de tal modo consumido por sua habilidade que se cega para as outras. Exemplos não faltam, seja no mundo da ficção, seja no mundo real; de Ted Kazinsky, o Unabomber, a John F. Nash, o matemático que inspirou A Beautiful Mind.

Good Will Hunting, dirigido por Gus Van Sant e atuado por, entre outros, Matt Damon e Robin Williams, é outro que se debruça sobre o tema. No filme, Will Hunting é um órfão pobre que mora sozinho em um barraco e ganha a vida como faxineiro no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Além disso, ele é um gênio. O que fica evidente para todos quando um grande professor de matemática, ganhador da medalha Field, coloca um desafio no corredor, para ser resolvido durante o semestre; Will escreve a solução no dia seguinte. Não se apresenta, no entanto, e só é efetivamente descoberto ao ser pego no ato, enquanto resolvia um segundo desafio, ainda mais difícil, proposto pelo professor. Paralelamente, Will está em julgamento por se envolver em uma briga de rua. Preso, consegue sair sob os cuidados do professor, contanto que siga duas recomendações: trabalhe com ele e consulte psicólogos. A tensão essencial do filme é os anseios do gênio que parece não se preocupar com a pompa e a vaidade acadêmica, jogando seu talento no lixo, na interpretação do professor. Robin Williams, um homem simples, ex-combatente e psicólogo, será o ponto de conflito que permitirá a abertura do gênio. Por trás de uma inteligência brilhante, quase sobrenatural, haviam problemas tão comuns a qualquer outro de sua idade, sobretudo de classes mais pobres. Constatar isso é voltar ao problema do gênio e do sábio: tecnicamente, o sábio superou esses problemas; o sábio possui a chave da “boa vida”, da vida feliz. A filosofia do sábio é apenas um caminho para o bem viver. Já o gênio, como retratado no filme, não tem solução especial para o problema da vida, sofre dos mesmos males que os outros, comete os mesmos erros. O gênio, enfim, é mais humano; o sábio remete à divindade. No filme, o polo oposto – a sabedoria mediadora – é preenchido pelo psicólogo. Ele não é especialmente brilhante, leu muitos livros, mas não se destacou suficientemente para alcançar a cátedra de uma grande universidade; e, no entanto, só ele consegue falar ao jovem gênio: é que sua sabedoria corre diretamente das fontes da vida. O sábio, enfim, incorpora o velho dito popular: “antes viver, depois filosofar.”

P.S. O pecado maior cometido pelo filme – que, insisto, é bom – está na personalidade de Will: ele, em alguns momentos, mostra muito mais do que genialidade, mostra uma grande erudição. Esse traço diminui a coerência de seu personagem: parece pouco provável que alguém que trabalhasse todo expediente e passasse as noites envolvido em bebedeiras e brigas tivesse tempo hábil para saber e ter lido tudo o que ele comenta. O erro foi ter confundido, justamente, a genialidade com a sabedoria, vista como erudição, no caso.

Em meio ao caos que tomou conta da USP no último semestre, ficou icônico, sobretudo entre os críticos dos métodos deliberativos estudantis, uma gravação de uma assembleia ocorrida no curso de letras. Uma menina, exaltada, chamava todos, aos berros, de fascistas. O que havia precedido a performance da indignada era uma votação que punha fim à greve naquele curso. “Fascista” – uma palavra perigosa. Dificilmente alguém se reconhecerá politicamente autoritário, ou fará uma defesa das “ideias autoritárias”; o perigo do autoritarismo é justamente esse: sua embalagem é confusa. A maioria das decisões autoritárias, anti-democráticas, buscam seus fundamentos na inaptidão, suposta por alguns, de outros com opiniões diversas. Suprimem-se, então, os segundos, “para seu próprio bem”. É o caso de uma elite brasileira que não se cansa de desvalorizar o voto popular, sobretudo do nordeste, justificando a posição, nunca em um autoritarismo de fazendeiro de café, mas sempre no “melhor para o país”: afinal, os nordestinos estão esfaimados demais para saberem alguma coisa. De forma análoga, assim trabalha um setor da esquerda: sob o signo do fascismo\nazismo. Qualquer decisão que não se alinhar ao eixo de lugares-comuns defendidos pela massa de estudantes é fascista e deve, portanto, ser eliminada, ainda que a violência tenha de ser empregada. É para o bem deles, eles não sabem o que fazem.

Isso não significa, é claro, que toda decisão da massa deva ser benéfica. Um sem número de decisões sanguinárias e desastrosas teve grande aceitação popular. A vox populi está muito longe da vox Dei na grande maioria dos casos. É nesse sentido que Vladimir Safatle assina, na Folha de São Paulo, mais uma de suas colunas apontando para “os limites do liberalismo”. Como sempre, prepara o terreno com uma das unanimidades (ou quase) das humanidades universitárias. Foi a vez de Theodor Adorno, e seus estudos, na década de 50, sobre o potencial autoritário dos indivíduos. Citando a coluna:

O resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de “fascismo”) que visava medir as tendências autoritárias da personalidade individual.

Os tais testes evidenciariam fantasias de poder oriundas, sobretudo, do medo. O poder, quando materializado, cairia sobre a cabeça de minorias, estrangeiros etc. Até aí, nada de novo no front. Matam-se uns aos outros por motivos de religião, etnia, origem, sexualidade, entre outros, desde que o mundo é mundo; e é preciso de muita fé para acreditar numa súbita melhoria da humanidade. O primeiro problema do artigo é citar esse problema como inerente ao “indivíduo liberal”. De repente, o problema não é mais o medo, tampouco a violência pulsante, mas a… democracia liberal. Sim, dar voz ao indivíduo comum – mal resolvido, ressentido, apavorado – é como armar um psicopata. E, de fato, muitas vezes é. Para isso nossa democracia é representativa e temos constituição e leis que dão limites a expressividade de nossos terrores. A vontade popular nem sempre poderá ser atendida, e joga apenas em quadro pré-determinado. Além disso, se garantirmos suficientemente a liberdade, para que possa, sempre, haver o debate franco, será possível denunciar e trabalhar sobre todo o tipo de problema que possa surgir. Não é tarefa fácil, a democracia; pelo contrário, exige trabalho e soluções mágicas não brotam do dia para a noite. Mas foi ela, até agora, a melhor forma encontrada para ampliação dos direitos civis, para coexistência pacífica dos diferentes, para um caminhar – lento e difícil – para alguma justiça social. O verdadeiro perigo é cansar do terreno monótono e pantanoso da democracia liberal, trocando-a por “democracias reais”, nomes comuns para designar ditaduras dos “esclarecidos”. É a moça da letras que, se pudesse, anularia a votação onde a greve perdeu – coisa de fascista.