A Voz do Povo

Em meio ao caos que tomou conta da USP no último semestre, ficou icônico, sobretudo entre os críticos dos métodos deliberativos estudantis, uma gravação de uma assembleia ocorrida no curso de letras. Uma menina, exaltada, chamava todos, aos berros, de fascistas. O que havia precedido a performance da indignada era uma votação que punha fim à greve naquele curso. “Fascista” – uma palavra perigosa. Dificilmente alguém se reconhecerá politicamente autoritário, ou fará uma defesa das “ideias autoritárias”; o perigo do autoritarismo é justamente esse: sua embalagem é confusa. A maioria das decisões autoritárias, anti-democráticas, buscam seus fundamentos na inaptidão, suposta por alguns, de outros com opiniões diversas. Suprimem-se, então, os segundos, “para seu próprio bem”. É o caso de uma elite brasileira que não se cansa de desvalorizar o voto popular, sobretudo do nordeste, justificando a posição, nunca em um autoritarismo de fazendeiro de café, mas sempre no “melhor para o país”: afinal, os nordestinos estão esfaimados demais para saberem alguma coisa. De forma análoga, assim trabalha um setor da esquerda: sob o signo do fascismo\nazismo. Qualquer decisão que não se alinhar ao eixo de lugares-comuns defendidos pela massa de estudantes é fascista e deve, portanto, ser eliminada, ainda que a violência tenha de ser empregada. É para o bem deles, eles não sabem o que fazem.

Isso não significa, é claro, que toda decisão da massa deva ser benéfica. Um sem número de decisões sanguinárias e desastrosas teve grande aceitação popular. A vox populi está muito longe da vox Dei na grande maioria dos casos. É nesse sentido que Vladimir Safatle assina, na Folha de São Paulo, mais uma de suas colunas apontando para “os limites do liberalismo”. Como sempre, prepara o terreno com uma das unanimidades (ou quase) das humanidades universitárias. Foi a vez de Theodor Adorno, e seus estudos, na década de 50, sobre o potencial autoritário dos indivíduos. Citando a coluna:

O resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de “fascismo”) que visava medir as tendências autoritárias da personalidade individual.

Os tais testes evidenciariam fantasias de poder oriundas, sobretudo, do medo. O poder, quando materializado, cairia sobre a cabeça de minorias, estrangeiros etc. Até aí, nada de novo no front. Matam-se uns aos outros por motivos de religião, etnia, origem, sexualidade, entre outros, desde que o mundo é mundo; e é preciso de muita fé para acreditar numa súbita melhoria da humanidade. O primeiro problema do artigo é citar esse problema como inerente ao “indivíduo liberal”. De repente, o problema não é mais o medo, tampouco a violência pulsante, mas a… democracia liberal. Sim, dar voz ao indivíduo comum – mal resolvido, ressentido, apavorado – é como armar um psicopata. E, de fato, muitas vezes é. Para isso nossa democracia é representativa e temos constituição e leis que dão limites a expressividade de nossos terrores. A vontade popular nem sempre poderá ser atendida, e joga apenas em quadro pré-determinado. Além disso, se garantirmos suficientemente a liberdade, para que possa, sempre, haver o debate franco, será possível denunciar e trabalhar sobre todo o tipo de problema que possa surgir. Não é tarefa fácil, a democracia; pelo contrário, exige trabalho e soluções mágicas não brotam do dia para a noite. Mas foi ela, até agora, a melhor forma encontrada para ampliação dos direitos civis, para coexistência pacífica dos diferentes, para um caminhar – lento e difícil – para alguma justiça social. O verdadeiro perigo é cansar do terreno monótono e pantanoso da democracia liberal, trocando-a por “democracias reais”, nomes comuns para designar ditaduras dos “esclarecidos”. É a moça da letras que, se pudesse, anularia a votação onde a greve perdeu – coisa de fascista.

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