Gênio Genioso

Nosso tempo foi aquele onde a figura do sábio – o que leva a vida de modo superior, envolvido em uma certa aura de misterio e respeitabilidade, cujo conhecimento vincula-se, diretamente, à vida – foi substituída por outra: a do gênio. O sábio atravessa uma longa jornada para, ao fim da vida, atingir seu potencial (embora figuras que se encaixem no tipo, como Siddhartha Gautama e Jesus, façam exceção à regra); já o gênio é o vencedor de uma loteria genética. Nasce com um dom muito agudo e, sem nunca conseguir dominá-lo, dificilmente se torna algo a ser seguido: muitos sucumbem em meio ao turbilhão da vida. Muitas vezes, os gênios sequer se importam com seu dom ou com seu uso; outras, o gênio é de tal modo consumido por sua habilidade que se cega para as outras. Exemplos não faltam, seja no mundo da ficção, seja no mundo real; de Ted Kazinsky, o Unabomber, a John F. Nash, o matemático que inspirou A Beautiful Mind.

Good Will Hunting, dirigido por Gus Van Sant e atuado por, entre outros, Matt Damon e Robin Williams, é outro que se debruça sobre o tema. No filme, Will Hunting é um órfão pobre que mora sozinho em um barraco e ganha a vida como faxineiro no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Além disso, ele é um gênio. O que fica evidente para todos quando um grande professor de matemática, ganhador da medalha Field, coloca um desafio no corredor, para ser resolvido durante o semestre; Will escreve a solução no dia seguinte. Não se apresenta, no entanto, e só é efetivamente descoberto ao ser pego no ato, enquanto resolvia um segundo desafio, ainda mais difícil, proposto pelo professor. Paralelamente, Will está em julgamento por se envolver em uma briga de rua. Preso, consegue sair sob os cuidados do professor, contanto que siga duas recomendações: trabalhe com ele e consulte psicólogos. A tensão essencial do filme é os anseios do gênio que parece não se preocupar com a pompa e a vaidade acadêmica, jogando seu talento no lixo, na interpretação do professor. Robin Williams, um homem simples, ex-combatente e psicólogo, será o ponto de conflito que permitirá a abertura do gênio. Por trás de uma inteligência brilhante, quase sobrenatural, haviam problemas tão comuns a qualquer outro de sua idade, sobretudo de classes mais pobres. Constatar isso é voltar ao problema do gênio e do sábio: tecnicamente, o sábio superou esses problemas; o sábio possui a chave da “boa vida”, da vida feliz. A filosofia do sábio é apenas um caminho para o bem viver. Já o gênio, como retratado no filme, não tem solução especial para o problema da vida, sofre dos mesmos males que os outros, comete os mesmos erros. O gênio, enfim, é mais humano; o sábio remete à divindade. No filme, o polo oposto – a sabedoria mediadora – é preenchido pelo psicólogo. Ele não é especialmente brilhante, leu muitos livros, mas não se destacou suficientemente para alcançar a cátedra de uma grande universidade; e, no entanto, só ele consegue falar ao jovem gênio: é que sua sabedoria corre diretamente das fontes da vida. O sábio, enfim, incorpora o velho dito popular: “antes viver, depois filosofar.”

P.S. O pecado maior cometido pelo filme – que, insisto, é bom – está na personalidade de Will: ele, em alguns momentos, mostra muito mais do que genialidade, mostra uma grande erudição. Esse traço diminui a coerência de seu personagem: parece pouco provável que alguém que trabalhasse todo expediente e passasse as noites envolvido em bebedeiras e brigas tivesse tempo hábil para saber e ter lido tudo o que ele comenta. O erro foi ter confundido, justamente, a genialidade com a sabedoria, vista como erudição, no caso.

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