Verdade e Progresso – Uma notinha sobre uma incompreensão

Talvez uma das maiores fontes da incompreensão entre os homens seja a má fé. A má fé é o olhar que já se dirige ao objeto de estudo injuriado; é o olhar analítico que lê Heidegger avidamente buscando falácias, incongruências, mas também é o olhar “continental” (a terminologia é péssima, mas serve) que passa por cima de todos os trabalhos fora de sua tradição com justificativas infundadas, desinformadas e generalizadas. No caso da filosofia, talvez houvessem mais encontros caso a boa vontade fosse maior. Na interpretação de Rorty:

Um dos fatos notáveis sobre a filosofia ocidental contemporânea é que os filósofos não-anglófonos não lêem muita filosofia anglófona, e vice-versa. E nem tampouco temos muitos indícios de que uma ponte ligando a chamada ‘filosofia analítica’ à chamada ‘filosofia continental’ esteja sendo construída. Eu lamento isso, pois acredito que o trabalho mais interessante que vem sendo feito nas duas tradições apresenta consideráveis interseções.” (Um Mundo sem Substâncias; p.55)

O problema da má vontade é turvar essas interseções, dirigindo o olhar só para os desencontros. Até aí, dois filósofos, não importa a tradição, apresentaram um número razoável dos dois: encontros e desavenças.

Assim, leio a crítica de “What’s the Use of Truth?“, edição do debate entre Rorty e o filósofo analítico francês (sim, eles existem também na terra de Derrida) Pascal Engels. De modo algum direi que a crítica de Rui Daniel Cunha, o filósofo português, é um exemplo da “má fé”, mas me parece cometer um erro fundamental que seria facilmente generalizado e tomado como exemplo de que, enfim, Rorty sucumbira ao “vale tudo” da irracionalidade francesa. Cunha cita um trecho de uma fala de Rorty, que segue:

rejeição da ideia de que alguns tipos de discurso, algumas partes da cultura, estão em contacto mais próximo com o mundo, ou se ajustam melhor ao mundo, do que outros tipos de discurso. Se se abandona esta ideia, então considera-se cada discurso — crítica literária, história, física, química, jargão de canalizador — como estando ao mesmo nível no que toca à relação com a realidade” (p. 36 ).”

Depois, acrescenta:

Esta tese de Rorty é francamente discutível: não será a ciência, por exemplo, uma descrição superior da realidade em comparação com a astrologia ou o tarot? Mas Rorty insiste e considera mesmo que o que o separa de Pascal Engel é justamente a questão de saber se certas áreas da investigação atingem um tal conhecimento mais adequado da realidade ou não: Engel acha que sim, Rorty defende que não.

O exemplo escolhido é péssimo porque não atenta ao verdadeiro problema da questão, a da conhecimento enquanto correspondência ou ferramenta. A tese de Rorty, que não se pretende discutida nos termos de seus adversários – ou seja, de representação – vêm em auxílio para a dissolução de uma divisão binária do conhecimento: aquele que falaria das “coisas que existem”, como átomos, e aquele que falaria de coisas imateriais, como a ética e a crítica literária. Se a preocupação maior for a representação, é evidente que ética e crítica não tem poder algum, a não ser que se acredite em uma Crítica e uma Ética inscritas e ocultas no mundo, a serem estudadas pelo credo científico. Não sendo o caso, a proposição de Rorty nos faz olhar por outro ângulo, vendo tanto a ética quanto a mecânica como ferramentas que servem diferentes propósitos; irredutíveis e inconciliáveis. Portanto, retornando ao argumento de Rui Daniel, não se trata de concorrentes diretos, cujo objeto é parecido, como a alquimia e a química; mas do reconhecimento de linguagens díspares para objetos díspares. Grande parte do problema às críticas do relativismo é que elas se fundam em uma ideia vaga e imprecisa do que seja relativismo: como se então “tudo desse na mesma”. Não dá. Tanto Rorty quanto Kuhn sofreram com um tipo de crítica que nem lhes dizia respeito: a de que não reconheciam os refinamentos nas ciências, seu pode óbvio, evidente. Mas, nesse sentido, o progresso, para Rorty, é facilmente mensurável: trata-se de decidir qual linguagem serve melhor a algum fim, qual linguagem é mais útil. Nesse caso, é possível visualizar que a noção de Progresso ou de melhoria não depende da noção de Verdade.

P.S.: O artigo termina com uma conclusão da ineficiência de Rorty em diluir os debates epistemológicos e seus “problemas reais”. Argumenta que, à despeito dos livros de Rorty, Kuhn etc., a discussão continua. A refutação desse argumento está no próprio texto, na comparação do autor entre ciência e tarô. Ele afirma que a ciência tem uma posição privilegiada em relação ao tarô no que diz respeito à Verdade. No argumento final, dá a entender que, caso Rorty estivesse correto, então todos teriam enxergado “clara e distintamente” o problema dos debates epistemológicos, que teriam cessado. Ora, se fosse assim, e se tarô e ciência estivessem ligados da forma sugerida, então também o tarô deveria ter esvanecido. O que, como sabemos, não acontece.

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