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Arquivo mensal: abril 2012

Saiu nos cinemas o remake 3D caça-níquel de Titanic, filme de 1997 de James Cameron (Avatar etc.). A considerar que o filme não tem 15 anos, isso poderia suscitar reflexões sobre a efemeridade e falta de criatividade da indústria de cinema, pensamento reforçado por outro remake – dessa vez, uma refilmagem -, o de Homem Aranha, filme de 2002, cuja nova versão está programada para 2012. De qualquer forma, isso pouco importa, já que o sentido desse humilde post é outro: provar que há vida amorosa inteligente fora do círculo de grandiosidade exagerada, de melodrama desproporcional que, aliás, caracteriza o que há de pior na rica vida cultural norte-americana. Faço o esforço, então, de lembrar 5 filmes diferentes que falam desse tema que surgiu com o homem e, parece-me, que continuará como uma de nossas principais obsessões até nossa inevitável extinção. É bom lembrar, no entanto, que a lista não tem pretensões de ir além de uma mera idiossincrasia arbitrária, ditada pela memória parca e pelas forças circunstanciais do momento em que a escrevi. Vale lembrar, também, que ela não está organizada em uma ordem de melhores\piores.

Breaking the Waves – Lars von Trier

De 1996, Breaking the Waves, de autoria do dinamarquês por trás do manifesto Dogma 95, tem praticamente todos os aspectos que fizeram famosa a câmera de Lars: a crueldade, a câmera segurada na mão, aflitiva e pessoal, os temas fortes e marcados por algum sentimento de religiosidade\espiritualidade. Não obstante ter sido vencedor do prêmio de Cannes e classificado por Roger Ebert como um dos melhores filmes da década, o filme não é dos mais assistidos e comentados do diretor.

A história, simples, conta a história do amor entre uma provinciana vista como ingênua e um rude marinheiro, que acaba acidentado. O filme retrata a descoberta e consolidação do amor entre os dois, mas se foca na manutenção do enlace até mesmo depois do trágico incidente que deixa gravemente debilitado o marinheiro. Há uma forte noção de amor cristão e uma discussão ética acerca do que seja o bem, mas, acima de tudo, é um quadro singelo e trágico que retrata o Amor, enaltecendo o sacrifício pessoal.

Tous les Matins du Monde – Alain Corneau

De 1991, do francês Alain Corneau, estrelando Gerard Depardieu, o filme aborda a vida do compositor do final do século XVII\início do XVIII, Marin Marais e seu mentor, Monsieur de Sainte-Colombe. A história, preenchida por belas imagens, músicas, silêncios e olhares, gira em torno da relação entre os dois; dos dois com a música e, por último, mas não menos importante, dos dois com o belo sexo. No caso de Sainte-Colombe, o foco se dá na elaboração do luto após a morte do amor de sua vida: sua mulher, amor ligado a uma firme fé religiosa, uma rigorosa e severa rotina e uma devoção à música. No outro lado, o de Marin Marais, a história gira em torno de sua relação com as filhas de Sainte-Colombe, e, evidentemente, também aparece no sentido inverso: o amor das filhas pelo jovem e talentoso músico.

Mogari no Mori – Naomi Kawase

Mogari no Mori é um nome japonês que significa, literalmente, “Floresta dos Lamentos”. Lembro-me de ter anotado em um caderno, depois de ver o filme: “o ocidente precisa aprender a escutar o silêncio”. Não me lembro, agora, se a frase em questão foi algo em que pensei enquanto assistia ou simplesmente a fala de algum personagem. Talvez tenha sido até uma mistura dos dois. O que importa é que o mote – o silêncio -, acompanhado das belas imagens e da rica expressão corporal dos atores, algo que é tão comum no cinema oriental, é o meio pelo qual o filme pode ser apreendido. A história em questão trata do encontro fortuito de duas personagens: uma enfermeira que trabalha o luto pela súbita morte do filho e um velho senhor, internado no asilo isolado em que ela vai trabalhar, que há 30 anos sofre a morte da esposa. A dor em comum permite um contato não verbal entre os personagens, um entendimento e consentimento mútuos que os conduz a um caminho de revisitação e elaboração de um passado que insiste em se apresentar como fantasma, impossibilitando o presente e futuro. Em seus 97 minutos e pouquíssimos diálogos e a prova viva de que, muitas vezes, conforme nos contava Gottfried Leibniz, menos é mais.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind – Michel Gondry

“How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d;
Labour and rest, that equal periods keep;
“Obedient slumbers that can wake and weep;”
Desires compos’d, affections ever ev’n,
Tears that delight, and sighs that waft to Heav’n.”

Alexander Pope, parte de “Eloisa to Abelard”.

E se você pudesse apagar aquelas memórias ruins, que insistem em nos paralisar em um passado que não existe, impedindo-nos de vislumbrar um futuro melhor? Animada por essa pergunta, com título emprestado do poema de Pope que narra a história do filósofo e teólogo Abelardo e seu impossível amor por Eloísa, o filme de Gondry é um divertido, sombrio e reflexivo experimento mental sobre o tema. Após um relacionamento que naufragou, Joel Barish (Jim Carrey) descobre que sua ex-namorada passou por um procedimento que o apagou de suas lembranças e, então, decide fazer o mesmo. No entanto, no último momento, Joel percebe que aquelas lembranças eram parte de seu Eu e que, sem elas, sua vida estaria irrecuperavelmente fragmentada. Tenta a todo custo guardar alguma lembrança, algo que evocasse a antiga amada. É por obra do acaso – e de alguma sensibilidade e força do destino maiores – que os dois voltam a se encontrar e acabam, juntos, redescobrindo o que até então parecia perdido. O filme trata não só da relação amorosa em si, mas também de uma concepção filosófica da memória enquanto constituinte do sujeito e do papel das más lembranças em nós.

A Single Man – Tom Ford

A Single Man – cuja a sofrível tradução oficial para o português é “Direito de Amar” – se passa em um único dia. Como na canção de Chico Buarque, basta um dia para reconstruir toda a história, fazer “desatar a fantasia” de George (Colin Firth), depressivo professor universitário homossexual que se depara com a súbita morte de seu parceiro Jim (Matthew Goode). O acontecimento repentino e inesperado destrói o já instável ânimo do professor, que é forçado a rever sua trajetória e seu relacionamento, visitando problemas cruciais como a falta de aceitação: George não pode comparecer ao enterro de Jim.

Tentado ao suicídio, encarnando o verso de Auden – “For nothing now can ever come to any good.” (Funeral Blues) – George visita lugares e reminiscências, conseguindo enxergar, através do véu cinzento que se irrompeu em sua visão, a cor pulsante da vida, que aparece literalmente, como recurso visual pulsante em algumas cenas do filme. A história termina e ficamos com um gosto agridoce na boca, algo como outro verso, esse de Drummond,

Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Considerações finais:

Escrevendo essa lista percebi algumas coisas. Em especial, que os filmes tratam, sobretudo, sobre a perda. Consigo imaginar dois motivos para que assim o seja. O primeiro, que eu, saturnino por excelência, tenha alguma tara mórbida por esse tipo de filme. O segundo, que acho mais provável, é que para bem refletir sobre o tema somos obrigados a nos ver, em situação extrema, privados do objeto amado. Só assim podemos realmente analisar o que significa o objeto, por ver claramente o que sua subtração implica em nossas vidas. Muitas vezes, tal a confusão dos corpos e almas dos amantes, a subtração implica mesmo na morte. Reforça a tese platônica, expressa n’O Banquete, onde se lê:

Que quereis, ó homens, ter um do outro?, e se, diante do seu embaraço, de novo lhes perguntasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso.” Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demostraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Espero que ela goste. 🙂