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Arquivo mensal: junho 2012

Em memória de meu pai, transcrevo suas palavras: ‘e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço.‘”

(Raduan Nassar; Lavoura Arcaica)

Para a música, é comum estar mais próxima da literatura do que da pintura. O espaço da música é o tempo; as notas, isoladas no instante, ganham sentido na medida em que são precedidas e prosseguidas por outras, compondo uma narrativa. Ter a forma de narrativa não significa poder ser traduzível em palavras, mas ter acontecimentos que ganham sentido nesse fluxo do tempo, que parecem levar a “algo”.

O interessante da música do saxofonista americano Jon Hassell é subverter essa ordem, tornando a música espacial. Ouvindo-o tocar, não consigo intuir uma história com começo, meio e fim; antes, os sons parecem representar objetos emergindo em um cenário. No começo de cada música, já se tem toda ela: no sentido de que todo o ambiente já está ali. O que acontece é uma lenta exploração de cada parte, uma detalhada observação das possibilidades de cada fresta do solo, de cada folha.

P.S. Meu conhecimento técnico de música é zero, esse texto é mais uma notinha sobre uma impressão completamente subjetiva a um show. Não pretendo nada além disso.

En fait je n’étais pas capable de formuler mon expérience, mais, après coup, je ressentais qu’elle pouvait correspondre à des questions comme: ‘Que suis-je?’ ‘Pourquoi suis-je ici?’ ‘Qu’est-ce que c’est que ce monde dans lequel je suis?’ J’éprouvais un sentiment d’étrangeté, l’étonnement et l’émerveillement d’être là. En même temps, j’avais le sentiment d’être immergé dans le monde, d’en faire partie, le monde s’étendant depuis le plus petit brin d’herbe jusqu’aux étoiles. Ce monde m’était présent, intensément présent. Bien plus tard, je devais découvrir que cette prise de conscience de mon immersion dans le monde, cette impression d’appartenance au Tout, était ce que Romain Rolland a appelé le ‘sentiment océanique’. Je crois que je suis philosophe cette temps-là, si l’on entend par philosophie cette conscience de l’existence, de l’être-au-monde.
[…]

J’ai commencé à percevoir le monde d’une manière nouvelle. Le ciel, les nuages, les étoiles, les ‘soirs du monde’, comme je me disais à moi-même, me fascinaient. Mettant le dos sur l’appui de la fenêtre, je regardais vers le ciel la nuit, en ayant l’impression de me plonger dans l’immensité étoilée. Cette expérience a dominé toute ma vie. […] Tout d’abord, cette expérience a été pour moi la découverte de quelque chose d’émouvant et de fascinant qui n’était absolument pas lié à la foi chrétienne. Elle a donc joué un rôle important dans mon évolution intérieure. Par ailleurs, elle a fortement influencé ma conception de la philosophie: j’ai toujours considéré la philosophie comme une transformation de la perception du monde.

(Pierre Hadot, La Philosophie comme manière de vivre.)