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Ensaio

2011 foi um ano histórico para o Corinthians: a construção de um estádio próprio foi anunciada quase simultaneamente à classificação para a derradeira libertadores, da qual se sagraria campeão invicto no ano seguinte.

Não era um copo cheio, porém. Os pessimistas – os que aguçam o olho para o invisível – ousaram lembrar que o clube que antes liderou um histórico movimento democrático, agora campeão, já não dava mais aulas de espírito cívico. Au contraire. Parcerias estranhas (e quem falou contra Kia Joorabchian, quando ele trouxe Carlitos Tevez para o ataque do alvinegro?), corrupção etc. Os imbróglios não pagam a dor de pesquisá-los a fundo. E os jogadores: não que Sócrates um dia tenha sido a regra – Pelé que o diga -, mas há uma certa tristeza (nostálgica, é verdade), de um tempo onde jogador de futebol e acefalia não eram sinônimos quase perfeitos (Paulo André, o pintor francofalante e jazzófilo, que me perdoe; a inteligência socrática é mais do que isso: afiada).

Vencemos a América, e nosso estádio será visto por todo o mundo. Teria sido ainda melhor sem os pactos fáusticos, mas sabe-se lá se se pode vencer sem vender-se ao diabo.

Leio¹ que há uma coisa chamada trânsito de Vênus. É um evento astronômico de alguma raridade: ocorre apenas em pares, separados por oito anos de idade; depois, voltam a ocorrer em pouco mais de um século. O último par ocorrido se iniciou em 2004. A segunda passagem deu-se em Junho de 2012. Por sua previsibilidade incontestável, sei que nunca presenciarei a passagem do planeta “através” do Sol: o próximo par tem o início marcado para 2117. Não sei qual motivo – curiosidade, raridade, falta do que fazer; uma conjunção de alguns desses – me levaria a desejar me unir ao seleto clube que poderia afirmar: “vi um Trânsito de Vênus”, frase que para a maioria dos interlocutores aludiria, no máximo, à Marginal na hora do rush. Acredito que deva ter algo a ver com um anseio em ter algo seu, algo que ninguém saiba como é e, portanto, seja um bem existencial completamente privado. Por esse motivo pessoas colecionam selos raros, escalam o Monte Everest, assistem filmes iranianos e praticam marcha atlética ou pentatlo moderno. Para alguns, torcer para o Flamengo ou comentar o Big Brother não dá conta do recado; fazer coisas desse gênero é, justamente, perder a própria (ilusão de) individualidade na massa inautêntica dos lugares comuns. É por isso que estereótipos de torcedores de futebol são tão incisivos: o indivíduo é apenas mais um, igual a todos os outros. Um louco no bando. Os observadores do Trânsito de Vênus, por outro lado, são raros, seletos, superiores. Equiparam-se, no máximo, aos afortunados que conseguiram avistar um caboré-miudinho. Muito embora o bando das aves supere em grande medida o avistamento do fenômeno astronômico, o segundo tem a vantagem da ubiquidade.

Enfim, saber que não mais comporei o curioso clube me deixa triste. É daquelas limitações que, só por existirem, nos fazem sentir realmente pequenos, ridículos, limitados etcétera. Curiosamente, li na mesma publicação onde me informei acerca do acontecimento que nunca verei, uma descrição bem humorada de um tabloide de Abu Dhabi que anunciava, em um dia qualquer, 12 Ferraris na seção de classificados. Uma delas atendia pela módica quantia de 540 mil reais. A chance que um dia eu venha a ter essa quantia disponível na conta do banco, a tomar por minhas escolhas profissionais, beira o zero. Ainda sim, mesmo que um dia eu tivesse a somatória – através da sorte na loteria, talvez – acredito que dificilmente gastaria todo esse considerável pedaço em um enlatado italiano para assim poder me colocar, singelamente parado, ao lado de um Gol 1999, irmãos no já citado trânsito que assola a marginal. De qualquer forma, o sentimento é completamente diverso: eu posso ter essa Ferrari. Quer dizer, não há nenhum cálculo astronômico – conduzido pelos Maias ou pelo MIT – que me afirme, categoricamente: você não terá uma Ferrari 458 Italia nunca, tão somente porque a fábrica expele apenas um veículo a cada 100 anos, o próximo estando agendado para, precisamente, 2112. Não sei se por defeito de fabricação ou por qualquer outro motivo, mas minha massa encefálica entende a situação como só uma das muitas coisas que eu poderia fazer, ao lado de capitanear a seleção brasileira de Polo ou atravessar a Muralha da China de patinete. Esses pequenos possíveis-impossíveis, entendo-os como completamente possíveis. Tão possíveis quanto qualquer outra coisa trivial, como ir visitar o Cristo Redentor, e que me privo de fazer por puro capricho. Durmo tranquilo assim, imaginando todos os futuros contingentes que me aguardam, sorridentes. Infelizmente, os astrônomos me garantem que entre eles não consta o Trânsito de Vênus. Ao contrário dessas histórias comoventes de idosos que decidem, à beira da morte, fazer uma lista de desejos e realizá-los, risco possibilidades da caderneta dos possíveis, mesmo que antes as ignorasse completamente. É essa a angústia do homem.

¹”A Marcha de Vênus“, na Piauí de Julho de 2012, quando já era tarde demais para observar a passagem do planeta.

Para a música, é comum estar mais próxima da literatura do que da pintura. O espaço da música é o tempo; as notas, isoladas no instante, ganham sentido na medida em que são precedidas e prosseguidas por outras, compondo uma narrativa. Ter a forma de narrativa não significa poder ser traduzível em palavras, mas ter acontecimentos que ganham sentido nesse fluxo do tempo, que parecem levar a “algo”.

O interessante da música do saxofonista americano Jon Hassell é subverter essa ordem, tornando a música espacial. Ouvindo-o tocar, não consigo intuir uma história com começo, meio e fim; antes, os sons parecem representar objetos emergindo em um cenário. No começo de cada música, já se tem toda ela: no sentido de que todo o ambiente já está ali. O que acontece é uma lenta exploração de cada parte, uma detalhada observação das possibilidades de cada fresta do solo, de cada folha.

P.S. Meu conhecimento técnico de música é zero, esse texto é mais uma notinha sobre uma impressão completamente subjetiva a um show. Não pretendo nada além disso.

Saiu nos cinemas o remake 3D caça-níquel de Titanic, filme de 1997 de James Cameron (Avatar etc.). A considerar que o filme não tem 15 anos, isso poderia suscitar reflexões sobre a efemeridade e falta de criatividade da indústria de cinema, pensamento reforçado por outro remake – dessa vez, uma refilmagem -, o de Homem Aranha, filme de 2002, cuja nova versão está programada para 2012. De qualquer forma, isso pouco importa, já que o sentido desse humilde post é outro: provar que há vida amorosa inteligente fora do círculo de grandiosidade exagerada, de melodrama desproporcional que, aliás, caracteriza o que há de pior na rica vida cultural norte-americana. Faço o esforço, então, de lembrar 5 filmes diferentes que falam desse tema que surgiu com o homem e, parece-me, que continuará como uma de nossas principais obsessões até nossa inevitável extinção. É bom lembrar, no entanto, que a lista não tem pretensões de ir além de uma mera idiossincrasia arbitrária, ditada pela memória parca e pelas forças circunstanciais do momento em que a escrevi. Vale lembrar, também, que ela não está organizada em uma ordem de melhores\piores.

Breaking the Waves – Lars von Trier

De 1996, Breaking the Waves, de autoria do dinamarquês por trás do manifesto Dogma 95, tem praticamente todos os aspectos que fizeram famosa a câmera de Lars: a crueldade, a câmera segurada na mão, aflitiva e pessoal, os temas fortes e marcados por algum sentimento de religiosidade\espiritualidade. Não obstante ter sido vencedor do prêmio de Cannes e classificado por Roger Ebert como um dos melhores filmes da década, o filme não é dos mais assistidos e comentados do diretor.

A história, simples, conta a história do amor entre uma provinciana vista como ingênua e um rude marinheiro, que acaba acidentado. O filme retrata a descoberta e consolidação do amor entre os dois, mas se foca na manutenção do enlace até mesmo depois do trágico incidente que deixa gravemente debilitado o marinheiro. Há uma forte noção de amor cristão e uma discussão ética acerca do que seja o bem, mas, acima de tudo, é um quadro singelo e trágico que retrata o Amor, enaltecendo o sacrifício pessoal.

Tous les Matins du Monde – Alain Corneau

De 1991, do francês Alain Corneau, estrelando Gerard Depardieu, o filme aborda a vida do compositor do final do século XVII\início do XVIII, Marin Marais e seu mentor, Monsieur de Sainte-Colombe. A história, preenchida por belas imagens, músicas, silêncios e olhares, gira em torno da relação entre os dois; dos dois com a música e, por último, mas não menos importante, dos dois com o belo sexo. No caso de Sainte-Colombe, o foco se dá na elaboração do luto após a morte do amor de sua vida: sua mulher, amor ligado a uma firme fé religiosa, uma rigorosa e severa rotina e uma devoção à música. No outro lado, o de Marin Marais, a história gira em torno de sua relação com as filhas de Sainte-Colombe, e, evidentemente, também aparece no sentido inverso: o amor das filhas pelo jovem e talentoso músico.

Mogari no Mori – Naomi Kawase

Mogari no Mori é um nome japonês que significa, literalmente, “Floresta dos Lamentos”. Lembro-me de ter anotado em um caderno, depois de ver o filme: “o ocidente precisa aprender a escutar o silêncio”. Não me lembro, agora, se a frase em questão foi algo em que pensei enquanto assistia ou simplesmente a fala de algum personagem. Talvez tenha sido até uma mistura dos dois. O que importa é que o mote – o silêncio -, acompanhado das belas imagens e da rica expressão corporal dos atores, algo que é tão comum no cinema oriental, é o meio pelo qual o filme pode ser apreendido. A história em questão trata do encontro fortuito de duas personagens: uma enfermeira que trabalha o luto pela súbita morte do filho e um velho senhor, internado no asilo isolado em que ela vai trabalhar, que há 30 anos sofre a morte da esposa. A dor em comum permite um contato não verbal entre os personagens, um entendimento e consentimento mútuos que os conduz a um caminho de revisitação e elaboração de um passado que insiste em se apresentar como fantasma, impossibilitando o presente e futuro. Em seus 97 minutos e pouquíssimos diálogos e a prova viva de que, muitas vezes, conforme nos contava Gottfried Leibniz, menos é mais.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind – Michel Gondry

“How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d;
Labour and rest, that equal periods keep;
“Obedient slumbers that can wake and weep;”
Desires compos’d, affections ever ev’n,
Tears that delight, and sighs that waft to Heav’n.”

Alexander Pope, parte de “Eloisa to Abelard”.

E se você pudesse apagar aquelas memórias ruins, que insistem em nos paralisar em um passado que não existe, impedindo-nos de vislumbrar um futuro melhor? Animada por essa pergunta, com título emprestado do poema de Pope que narra a história do filósofo e teólogo Abelardo e seu impossível amor por Eloísa, o filme de Gondry é um divertido, sombrio e reflexivo experimento mental sobre o tema. Após um relacionamento que naufragou, Joel Barish (Jim Carrey) descobre que sua ex-namorada passou por um procedimento que o apagou de suas lembranças e, então, decide fazer o mesmo. No entanto, no último momento, Joel percebe que aquelas lembranças eram parte de seu Eu e que, sem elas, sua vida estaria irrecuperavelmente fragmentada. Tenta a todo custo guardar alguma lembrança, algo que evocasse a antiga amada. É por obra do acaso – e de alguma sensibilidade e força do destino maiores – que os dois voltam a se encontrar e acabam, juntos, redescobrindo o que até então parecia perdido. O filme trata não só da relação amorosa em si, mas também de uma concepção filosófica da memória enquanto constituinte do sujeito e do papel das más lembranças em nós.

A Single Man – Tom Ford

A Single Man – cuja a sofrível tradução oficial para o português é “Direito de Amar” – se passa em um único dia. Como na canção de Chico Buarque, basta um dia para reconstruir toda a história, fazer “desatar a fantasia” de George (Colin Firth), depressivo professor universitário homossexual que se depara com a súbita morte de seu parceiro Jim (Matthew Goode). O acontecimento repentino e inesperado destrói o já instável ânimo do professor, que é forçado a rever sua trajetória e seu relacionamento, visitando problemas cruciais como a falta de aceitação: George não pode comparecer ao enterro de Jim.

Tentado ao suicídio, encarnando o verso de Auden – “For nothing now can ever come to any good.” (Funeral Blues) – George visita lugares e reminiscências, conseguindo enxergar, através do véu cinzento que se irrompeu em sua visão, a cor pulsante da vida, que aparece literalmente, como recurso visual pulsante em algumas cenas do filme. A história termina e ficamos com um gosto agridoce na boca, algo como outro verso, esse de Drummond,

Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Considerações finais:

Escrevendo essa lista percebi algumas coisas. Em especial, que os filmes tratam, sobretudo, sobre a perda. Consigo imaginar dois motivos para que assim o seja. O primeiro, que eu, saturnino por excelência, tenha alguma tara mórbida por esse tipo de filme. O segundo, que acho mais provável, é que para bem refletir sobre o tema somos obrigados a nos ver, em situação extrema, privados do objeto amado. Só assim podemos realmente analisar o que significa o objeto, por ver claramente o que sua subtração implica em nossas vidas. Muitas vezes, tal a confusão dos corpos e almas dos amantes, a subtração implica mesmo na morte. Reforça a tese platônica, expressa n’O Banquete, onde se lê:

Que quereis, ó homens, ter um do outro?, e se, diante do seu embaraço, de novo lhes perguntasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso.” Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demostraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Espero que ela goste. 🙂

Talvez uma das maiores fontes da incompreensão entre os homens seja a má fé. A má fé é o olhar que já se dirige ao objeto de estudo injuriado; é o olhar analítico que lê Heidegger avidamente buscando falácias, incongruências, mas também é o olhar “continental” (a terminologia é péssima, mas serve) que passa por cima de todos os trabalhos fora de sua tradição com justificativas infundadas, desinformadas e generalizadas. No caso da filosofia, talvez houvessem mais encontros caso a boa vontade fosse maior. Na interpretação de Rorty:

Um dos fatos notáveis sobre a filosofia ocidental contemporânea é que os filósofos não-anglófonos não lêem muita filosofia anglófona, e vice-versa. E nem tampouco temos muitos indícios de que uma ponte ligando a chamada ‘filosofia analítica’ à chamada ‘filosofia continental’ esteja sendo construída. Eu lamento isso, pois acredito que o trabalho mais interessante que vem sendo feito nas duas tradições apresenta consideráveis interseções.” (Um Mundo sem Substâncias; p.55)

O problema da má vontade é turvar essas interseções, dirigindo o olhar só para os desencontros. Até aí, dois filósofos, não importa a tradição, apresentaram um número razoável dos dois: encontros e desavenças.

Assim, leio a crítica de “What’s the Use of Truth?“, edição do debate entre Rorty e o filósofo analítico francês (sim, eles existem também na terra de Derrida) Pascal Engels. De modo algum direi que a crítica de Rui Daniel Cunha, o filósofo português, é um exemplo da “má fé”, mas me parece cometer um erro fundamental que seria facilmente generalizado e tomado como exemplo de que, enfim, Rorty sucumbira ao “vale tudo” da irracionalidade francesa. Cunha cita um trecho de uma fala de Rorty, que segue:

rejeição da ideia de que alguns tipos de discurso, algumas partes da cultura, estão em contacto mais próximo com o mundo, ou se ajustam melhor ao mundo, do que outros tipos de discurso. Se se abandona esta ideia, então considera-se cada discurso — crítica literária, história, física, química, jargão de canalizador — como estando ao mesmo nível no que toca à relação com a realidade” (p. 36 ).”

Depois, acrescenta:

Esta tese de Rorty é francamente discutível: não será a ciência, por exemplo, uma descrição superior da realidade em comparação com a astrologia ou o tarot? Mas Rorty insiste e considera mesmo que o que o separa de Pascal Engel é justamente a questão de saber se certas áreas da investigação atingem um tal conhecimento mais adequado da realidade ou não: Engel acha que sim, Rorty defende que não.

O exemplo escolhido é péssimo porque não atenta ao verdadeiro problema da questão, a da conhecimento enquanto correspondência ou ferramenta. A tese de Rorty, que não se pretende discutida nos termos de seus adversários – ou seja, de representação – vêm em auxílio para a dissolução de uma divisão binária do conhecimento: aquele que falaria das “coisas que existem”, como átomos, e aquele que falaria de coisas imateriais, como a ética e a crítica literária. Se a preocupação maior for a representação, é evidente que ética e crítica não tem poder algum, a não ser que se acredite em uma Crítica e uma Ética inscritas e ocultas no mundo, a serem estudadas pelo credo científico. Não sendo o caso, a proposição de Rorty nos faz olhar por outro ângulo, vendo tanto a ética quanto a mecânica como ferramentas que servem diferentes propósitos; irredutíveis e inconciliáveis. Portanto, retornando ao argumento de Rui Daniel, não se trata de concorrentes diretos, cujo objeto é parecido, como a alquimia e a química; mas do reconhecimento de linguagens díspares para objetos díspares. Grande parte do problema às críticas do relativismo é que elas se fundam em uma ideia vaga e imprecisa do que seja relativismo: como se então “tudo desse na mesma”. Não dá. Tanto Rorty quanto Kuhn sofreram com um tipo de crítica que nem lhes dizia respeito: a de que não reconheciam os refinamentos nas ciências, seu pode óbvio, evidente. Mas, nesse sentido, o progresso, para Rorty, é facilmente mensurável: trata-se de decidir qual linguagem serve melhor a algum fim, qual linguagem é mais útil. Nesse caso, é possível visualizar que a noção de Progresso ou de melhoria não depende da noção de Verdade.

P.S.: O artigo termina com uma conclusão da ineficiência de Rorty em diluir os debates epistemológicos e seus “problemas reais”. Argumenta que, à despeito dos livros de Rorty, Kuhn etc., a discussão continua. A refutação desse argumento está no próprio texto, na comparação do autor entre ciência e tarô. Ele afirma que a ciência tem uma posição privilegiada em relação ao tarô no que diz respeito à Verdade. No argumento final, dá a entender que, caso Rorty estivesse correto, então todos teriam enxergado “clara e distintamente” o problema dos debates epistemológicos, que teriam cessado. Ora, se fosse assim, e se tarô e ciência estivessem ligados da forma sugerida, então também o tarô deveria ter esvanecido. O que, como sabemos, não acontece.

Nosso tempo foi aquele onde a figura do sábio – o que leva a vida de modo superior, envolvido em uma certa aura de misterio e respeitabilidade, cujo conhecimento vincula-se, diretamente, à vida – foi substituída por outra: a do gênio. O sábio atravessa uma longa jornada para, ao fim da vida, atingir seu potencial (embora figuras que se encaixem no tipo, como Siddhartha Gautama e Jesus, façam exceção à regra); já o gênio é o vencedor de uma loteria genética. Nasce com um dom muito agudo e, sem nunca conseguir dominá-lo, dificilmente se torna algo a ser seguido: muitos sucumbem em meio ao turbilhão da vida. Muitas vezes, os gênios sequer se importam com seu dom ou com seu uso; outras, o gênio é de tal modo consumido por sua habilidade que se cega para as outras. Exemplos não faltam, seja no mundo da ficção, seja no mundo real; de Ted Kazinsky, o Unabomber, a John F. Nash, o matemático que inspirou A Beautiful Mind.

Good Will Hunting, dirigido por Gus Van Sant e atuado por, entre outros, Matt Damon e Robin Williams, é outro que se debruça sobre o tema. No filme, Will Hunting é um órfão pobre que mora sozinho em um barraco e ganha a vida como faxineiro no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Além disso, ele é um gênio. O que fica evidente para todos quando um grande professor de matemática, ganhador da medalha Field, coloca um desafio no corredor, para ser resolvido durante o semestre; Will escreve a solução no dia seguinte. Não se apresenta, no entanto, e só é efetivamente descoberto ao ser pego no ato, enquanto resolvia um segundo desafio, ainda mais difícil, proposto pelo professor. Paralelamente, Will está em julgamento por se envolver em uma briga de rua. Preso, consegue sair sob os cuidados do professor, contanto que siga duas recomendações: trabalhe com ele e consulte psicólogos. A tensão essencial do filme é os anseios do gênio que parece não se preocupar com a pompa e a vaidade acadêmica, jogando seu talento no lixo, na interpretação do professor. Robin Williams, um homem simples, ex-combatente e psicólogo, será o ponto de conflito que permitirá a abertura do gênio. Por trás de uma inteligência brilhante, quase sobrenatural, haviam problemas tão comuns a qualquer outro de sua idade, sobretudo de classes mais pobres. Constatar isso é voltar ao problema do gênio e do sábio: tecnicamente, o sábio superou esses problemas; o sábio possui a chave da “boa vida”, da vida feliz. A filosofia do sábio é apenas um caminho para o bem viver. Já o gênio, como retratado no filme, não tem solução especial para o problema da vida, sofre dos mesmos males que os outros, comete os mesmos erros. O gênio, enfim, é mais humano; o sábio remete à divindade. No filme, o polo oposto – a sabedoria mediadora – é preenchido pelo psicólogo. Ele não é especialmente brilhante, leu muitos livros, mas não se destacou suficientemente para alcançar a cátedra de uma grande universidade; e, no entanto, só ele consegue falar ao jovem gênio: é que sua sabedoria corre diretamente das fontes da vida. O sábio, enfim, incorpora o velho dito popular: “antes viver, depois filosofar.”

P.S. O pecado maior cometido pelo filme – que, insisto, é bom – está na personalidade de Will: ele, em alguns momentos, mostra muito mais do que genialidade, mostra uma grande erudição. Esse traço diminui a coerência de seu personagem: parece pouco provável que alguém que trabalhasse todo expediente e passasse as noites envolvido em bebedeiras e brigas tivesse tempo hábil para saber e ter lido tudo o que ele comenta. O erro foi ter confundido, justamente, a genialidade com a sabedoria, vista como erudição, no caso.

Em meio ao caos que tomou conta da USP no último semestre, ficou icônico, sobretudo entre os críticos dos métodos deliberativos estudantis, uma gravação de uma assembleia ocorrida no curso de letras. Uma menina, exaltada, chamava todos, aos berros, de fascistas. O que havia precedido a performance da indignada era uma votação que punha fim à greve naquele curso. “Fascista” – uma palavra perigosa. Dificilmente alguém se reconhecerá politicamente autoritário, ou fará uma defesa das “ideias autoritárias”; o perigo do autoritarismo é justamente esse: sua embalagem é confusa. A maioria das decisões autoritárias, anti-democráticas, buscam seus fundamentos na inaptidão, suposta por alguns, de outros com opiniões diversas. Suprimem-se, então, os segundos, “para seu próprio bem”. É o caso de uma elite brasileira que não se cansa de desvalorizar o voto popular, sobretudo do nordeste, justificando a posição, nunca em um autoritarismo de fazendeiro de café, mas sempre no “melhor para o país”: afinal, os nordestinos estão esfaimados demais para saberem alguma coisa. De forma análoga, assim trabalha um setor da esquerda: sob o signo do fascismo\nazismo. Qualquer decisão que não se alinhar ao eixo de lugares-comuns defendidos pela massa de estudantes é fascista e deve, portanto, ser eliminada, ainda que a violência tenha de ser empregada. É para o bem deles, eles não sabem o que fazem.

Isso não significa, é claro, que toda decisão da massa deva ser benéfica. Um sem número de decisões sanguinárias e desastrosas teve grande aceitação popular. A vox populi está muito longe da vox Dei na grande maioria dos casos. É nesse sentido que Vladimir Safatle assina, na Folha de São Paulo, mais uma de suas colunas apontando para “os limites do liberalismo”. Como sempre, prepara o terreno com uma das unanimidades (ou quase) das humanidades universitárias. Foi a vez de Theodor Adorno, e seus estudos, na década de 50, sobre o potencial autoritário dos indivíduos. Citando a coluna:

O resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de “fascismo”) que visava medir as tendências autoritárias da personalidade individual.

Os tais testes evidenciariam fantasias de poder oriundas, sobretudo, do medo. O poder, quando materializado, cairia sobre a cabeça de minorias, estrangeiros etc. Até aí, nada de novo no front. Matam-se uns aos outros por motivos de religião, etnia, origem, sexualidade, entre outros, desde que o mundo é mundo; e é preciso de muita fé para acreditar numa súbita melhoria da humanidade. O primeiro problema do artigo é citar esse problema como inerente ao “indivíduo liberal”. De repente, o problema não é mais o medo, tampouco a violência pulsante, mas a… democracia liberal. Sim, dar voz ao indivíduo comum – mal resolvido, ressentido, apavorado – é como armar um psicopata. E, de fato, muitas vezes é. Para isso nossa democracia é representativa e temos constituição e leis que dão limites a expressividade de nossos terrores. A vontade popular nem sempre poderá ser atendida, e joga apenas em quadro pré-determinado. Além disso, se garantirmos suficientemente a liberdade, para que possa, sempre, haver o debate franco, será possível denunciar e trabalhar sobre todo o tipo de problema que possa surgir. Não é tarefa fácil, a democracia; pelo contrário, exige trabalho e soluções mágicas não brotam do dia para a noite. Mas foi ela, até agora, a melhor forma encontrada para ampliação dos direitos civis, para coexistência pacífica dos diferentes, para um caminhar – lento e difícil – para alguma justiça social. O verdadeiro perigo é cansar do terreno monótono e pantanoso da democracia liberal, trocando-a por “democracias reais”, nomes comuns para designar ditaduras dos “esclarecidos”. É a moça da letras que, se pudesse, anularia a votação onde a greve perdeu – coisa de fascista.