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Líricos

Leio¹ que há uma coisa chamada trânsito de Vênus. É um evento astronômico de alguma raridade: ocorre apenas em pares, separados por oito anos de idade; depois, voltam a ocorrer em pouco mais de um século. O último par ocorrido se iniciou em 2004. A segunda passagem deu-se em Junho de 2012. Por sua previsibilidade incontestável, sei que nunca presenciarei a passagem do planeta “através” do Sol: o próximo par tem o início marcado para 2117. Não sei qual motivo – curiosidade, raridade, falta do que fazer; uma conjunção de alguns desses – me levaria a desejar me unir ao seleto clube que poderia afirmar: “vi um Trânsito de Vênus”, frase que para a maioria dos interlocutores aludiria, no máximo, à Marginal na hora do rush. Acredito que deva ter algo a ver com um anseio em ter algo seu, algo que ninguém saiba como é e, portanto, seja um bem existencial completamente privado. Por esse motivo pessoas colecionam selos raros, escalam o Monte Everest, assistem filmes iranianos e praticam marcha atlética ou pentatlo moderno. Para alguns, torcer para o Flamengo ou comentar o Big Brother não dá conta do recado; fazer coisas desse gênero é, justamente, perder a própria (ilusão de) individualidade na massa inautêntica dos lugares comuns. É por isso que estereótipos de torcedores de futebol são tão incisivos: o indivíduo é apenas mais um, igual a todos os outros. Um louco no bando. Os observadores do Trânsito de Vênus, por outro lado, são raros, seletos, superiores. Equiparam-se, no máximo, aos afortunados que conseguiram avistar um caboré-miudinho. Muito embora o bando das aves supere em grande medida o avistamento do fenômeno astronômico, o segundo tem a vantagem da ubiquidade.

Enfim, saber que não mais comporei o curioso clube me deixa triste. É daquelas limitações que, só por existirem, nos fazem sentir realmente pequenos, ridículos, limitados etcétera. Curiosamente, li na mesma publicação onde me informei acerca do acontecimento que nunca verei, uma descrição bem humorada de um tabloide de Abu Dhabi que anunciava, em um dia qualquer, 12 Ferraris na seção de classificados. Uma delas atendia pela módica quantia de 540 mil reais. A chance que um dia eu venha a ter essa quantia disponível na conta do banco, a tomar por minhas escolhas profissionais, beira o zero. Ainda sim, mesmo que um dia eu tivesse a somatória – através da sorte na loteria, talvez – acredito que dificilmente gastaria todo esse considerável pedaço em um enlatado italiano para assim poder me colocar, singelamente parado, ao lado de um Gol 1999, irmãos no já citado trânsito que assola a marginal. De qualquer forma, o sentimento é completamente diverso: eu posso ter essa Ferrari. Quer dizer, não há nenhum cálculo astronômico – conduzido pelos Maias ou pelo MIT – que me afirme, categoricamente: você não terá uma Ferrari 458 Italia nunca, tão somente porque a fábrica expele apenas um veículo a cada 100 anos, o próximo estando agendado para, precisamente, 2112. Não sei se por defeito de fabricação ou por qualquer outro motivo, mas minha massa encefálica entende a situação como só uma das muitas coisas que eu poderia fazer, ao lado de capitanear a seleção brasileira de Polo ou atravessar a Muralha da China de patinete. Esses pequenos possíveis-impossíveis, entendo-os como completamente possíveis. Tão possíveis quanto qualquer outra coisa trivial, como ir visitar o Cristo Redentor, e que me privo de fazer por puro capricho. Durmo tranquilo assim, imaginando todos os futuros contingentes que me aguardam, sorridentes. Infelizmente, os astrônomos me garantem que entre eles não consta o Trânsito de Vênus. Ao contrário dessas histórias comoventes de idosos que decidem, à beira da morte, fazer uma lista de desejos e realizá-los, risco possibilidades da caderneta dos possíveis, mesmo que antes as ignorasse completamente. É essa a angústia do homem.

¹”A Marcha de Vênus“, na Piauí de Julho de 2012, quando já era tarde demais para observar a passagem do planeta.

Ouvir um quarteto de Beethoven não difere muito de buscar orquídeas selvagens: é uma forma de prazer fútil e sem sentido prático. É o tipo de atividade que dá sentido para a vida.

A folha branca, dirão algum dia os físicos, gera um campo gravitacional próprio. Ou melhor, há um magnetismo, uma atração seletiva; é, isso: não é qualquer globo ocular ou mão que treme e se agita frente ao espaço branco, virtual ou não. Só aqueles com a marca na testa entenderiam o chamado, na linguagem de alguma saga.

O chamado. O escolhido não escolhe – daí o nome -, nem pode recusá-lo. A sensibilidade ao branco do papel, essa maldição, não se cura nem sublima. Ela persiste. E, ao contrário do que podem pensar, não é ele que procurou a folha, em primeiro lugar; mas o inverso: ela que o encontrou em sonho, visão, acaso. A partir daí, sua vida se transformou em inferno; como o paranoico que vê signos em tudo, ainda que tentasse fugir, o que escolhia via o insuportável vazio por onde quer que andasse. Até mesmo dentro de si, dizem.

Mas como condição especial, maldição, não pode ser contraída apenas pela vontade. Os que tentam acabam percebendo que o fazem por alguma vontade interna, por desejo de ser como o escolhido em algum aspecto. Não dá certo: eventualmente, atribulados em meio a outras coisas, os que apenas tentam preencher as lacunas brancas do mundo acabam esquecendo a secreta linguagem de decifrá-las em qualquer lugar. Abandonam a atividade ao esquecimento.

Mas os autênticos, esses permaneciam. Através dos séculos, a insônia e a loucura os dominavam. Convulsos, por mais que tentassem, não conseguiam abandonar a inglória tarefa de construir mundos no vácuo dos espaços brancos.